
Como ensinar arte a uma lebre morta? A pergunta-provocação foi de Joseph Beuys. Fu Lana conheceu o artista através de uma performance em que ele convivia com um coyote por semanas, fechado com o animal, em uma Galeria de Nova York. Na sala, apenas papéis velhos e um pedaço de couro.
Hoje, em Porto Alegre, Joseph e mais 15 outros artistas conceituais de valor internacional continuam abalando as estruturas dos paradigmas da arte cerebral. Metade deles já faleceu. No entanto, é inegável a sobrevida de suas ideias e ideais.
São trabalhos que produzem pensamentos. O produto final, às vezes insólito e inacreditável, traz uma trilha de propostas. E por serem inusitados, não parecerem arte, muitos terem sido produzidos fora de museus e galerias, podem ser incompreendidos pelo grande público.
Porto Alegre está acostumada às mostras contemporâneas e aprecia carinhosa e orgulhosamente as Bienais do Mercosul. A geração de artistas como os curadores de “Horizontes Expandidos”, Maria Helena Bernardes (nascida em 1966) e André Severo (1974), foi forjada neste ambiente. Sendo assim, não é surpresa que os dois artistas porto-alegrenses, apesar de partirem de uma trajetória, inicialmente, tradicional, como a maioria dos artistas cerebrais, não optassem radicalmente por um novo fazer artístico, fundando o Projeto Areal, que comemora dez anos.
Os novos conceitos incluem, evidentemente, os cânones do happening, legados à história da arte contemporânea por seu inventor: Allan Kaprow. Diz ele, em documento traduzido e depoimento gravado, apresentados na mostra de arte no Santander Cultural: “Esqueça todas as formas de arte padronizadas, não coreografe, não escreva, não construa. O objetivo é fazer algo novo, algo que nem remotamente lembre a você de cultura. Faça com que não fique claro, nem para você, se o happening é vida ou arte”.
Fu Lana deixou os fones e dirigiu-se à parede. Nela, fotos enormes em preto e branco mostravam Maria Helena e Severo em um local que parecia ser a beira de um lago. Um ambiente natural, nada urbanizado.
Na próxima foto, os dois, com um saco, recolhiam folhas do chão. Na outra, estavam mais próximos, um com apoio no braço do outro. Os olhos fechados. O saco branco estava sendo carregado de volta. Ao final da sequência, um quadrinho emoldurava um bilhete assinado por Allan Krapow. Descrevia o happening, mais ou menos assim: “Dois andam, recolhendo folhas secas e as colocando dentro de um saco. Depois, um segura no braço do outro e fazem o mesmo trajeto, de volta, devolvendo as folhas ao solo”. Os dois curadores adquiriram os direitos autorais deste happening e o reproduziram.
Fu Lana está louquinha para voltar ao Santander Cultural para fazer um dos 10 Percursos que serão promovidos em caminhadas dentro do museu. Assim, poderá vir a entender o que poderia significar este happening. Claro que ela também poderia se colocar a pensar. Afinal, esse é o objetivo da obra. Tentou. Talvez a gente deva rever o que faz, sob uma outra perspectiva, voltando no tempo e devolvendo à Terra o que tiramos dela, apoiados em um semelhante e sem a certeza de dominar a cena, temendo até ser destruído por ela… Uau!
Outra obra, central, imponente, deixou Fu Lana embatucadíssima. Desta vez, sem palavras. O artista, Robert Smithson. O suporte, vídeo. A obra, Land Art: uma imensa espiral de terra, erigida em pleno oceano em algum ponto isolado, em uma microilha. Pedras de calcáreo, lama e cristais salinos foram retirados de seu ambiente histórico secular, empilhados por imensos caminhões na forma espiralada em formato de trilha, sobre a água rosada, devido a algas, em um local que foi escolhido cientificamente por apresentar um redemoinho natural. O efeito do trabalho é exasperante. O som, as frases em poesia ditas pelo artista e a imensidão do resultado deixam as pessoas sem fôlego, confortavelmente deitadas em chaise longues de madeira. E no entanto, diz Smithson ao final, a espiral é a forma universal. O sol é espiral em luz. O mundo é uma espiral. Silêncio. The End.
Fu Lana certamente vai voltar. Os percursos acontecerão sempre às onze horas da manhã. Neste dia, provavelmente ela não irá almoçar. Vai ficar matutando, embebida de ideias. Depois vai contar tudinho aqui, na clônica.

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