“Nunca mais saio de Porto Alegre de avião e muito menos retorno.” Foi a proposta de Fu Lana, ao espelho, furiosa, no banheiro da sala do desembarque. Nunca poderia ter imaginado que poderia ter sido aquela a verdadeira última vez. O sol brilhava no Rio. Ao embarcar de lá, estranhou as poltronas com os encostos mais baixos e em algumas partes meio puídas. Procurou abstrair. Companhia nova, devemos dar um voto de confiança. Ouviu um som estranho já na decolagem, um som que lembrava o abrir e fechar do trem de pouso, mas procurou distrair-se com um livro de fotos. Poderia estar histericando.
Depois de um excelente lanche – quem não investe em equipamento e tecnologia bem pode manter uma bela última refeição, no lugar das barrinhas de cereais e biscoitos –, o piloto sai da cabine. Querendo parecer discreto e calmo, tira os óculos rayban e olha fixamente para uma das saídas de emergência, no meio da aeronave, sobre a asa direita. Abaixa-se, apalpa o chão e a porta, ouve mais de perto e volta para a cabine, distribuindo sorrisos amarelos para aquela dezena e meia de pessoas paralisadas e boquiabertas. O avião é pequeno. Tudo o que Fu Lana poderia desejar é que Deus não quisesse dar um piparote no aparelho, em pleno ar.
Pelo sistema de som, o piloto avisa que estivera dando uma volta pela aeronave para checar um barulho estranho, mas que os equipamentos não denunciavam nada de errado e que deveria ser algo na tubulação do ar condicionado. Fu Lana enfiou o rosto no livro. Queria que tudo estivesse bem. Afinal, era onze de setembro.
Até que o mesmo cidadão avisa que encontraríamos uma frente fria sobre o Paraná e que estaria se acirrando ao nos aproximarmos de Porto Alegre. Nada soubera ela do temporal que varrera a região no dia anterior.
E o avião começou a tremer. O provável desconforto anunciado pelo comandante do avião tornou-se um pesadelo. As descidas e subidas, sacudidas e espasmos, deixaram Fu Lana en-lou-que-ci-da. Sozinha, nos três bancos, procurava esconder o pavor e obrigava-se a ficar muda. “Nós vamos conseguir, mas nunca mais isso de novo”, repetia mentalmente. Depois de um tempo, a voz do homem retornou: chegaremos a Porto Alegre em minutos e a temperatura está a 19 graus. Sufoco, suspiro, respira e resfolega. Parecia que a nave iria descer. Subiu, desceu, virou e ele prosseguia: senhores, o avião à nossa frente arremeteu. Aguardaremos instruções. Chove muito
E seguiu-se o corcoveio, por 47 longos e intermináveis minutos. Já estávamos a
Agarrada em sua bagagem de mão, fechou os olhos. Tentava não pedir ajuda a Deus. Em vida, nada fizera por ele. Não praticava religião. Procurou algo sobre o qual pudesse se arrepender mas apenas conseguiu lamentar não ter feito uma procuração para alguém tocar adiante os seus projetos. Pensava em suas gatinhas, quando deu uma espiadela lá fora. O piloto anunciou novo pouso e, de relance, viu a água. Parecia ser o Guaíba, na área próxima ao Salgado Filho. Não resistiu: pensou nas rodas, nas ranhuras da pista, nos equipamentos danificados e ouviu aquele barulho de novo. Só poderia ser ali, no trem de pouso. Seria de vez uma tragédia. Vai ver, as rodas não desceriam. Chuva que Deus mandava e dê-lhe piparotes. Mentalizou: “nós vamos conseguir, seguuuuura peão!” E o piloto gineteando fez sustar o bicho pela última vez.
Aplausos. Abafados ufas e Obrigado, Senhor era o que se ouvia. Fu Lana retirou as mãos crispadas e rígidas da frente do rosto. E só conseguiu desandar a chorar. Primeiro baixinho e, depois, precisou se esconder no toilete. Só pensava: “nunca mais de novo, nunca mais de novo…”.
Recompôs-se. Saiu do aeroporto. Pegou o carro. E foi para o trabalho. Um teste. Um susto. Uma prova: o horror existe.

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