Nas lutas cotidianas em prol da igualdade de direitos e deveres entre os seres humanos, sejam eles homens, mulheres, heterossexuais, homossexuais, brancos, negros, amarelos ou de qualquer opção sexual, raça ou credo, todo dia é, literalmente, um novo dia. Para se aprender, se surpreender, conhecer diferentes formas de andar contra a corrente, mesmo jurando o oposto, e recomeçar. E apesar dos avanços na trajetória em busca de equilíbrio destes movimentos, quando se imagina que nada mais vai nos espantar, sempre é possível uma nova reinvenção do passado, ainda que travestido de presente e futuro.
Uma das táticas usadas na desconstrução dos avanços do feminismo, na saideira de 2010, quase estreia de 2011, é manter o discurso de apoio aos direitos equânimes entre homens e mulheres, mas sempre que existir uma brecha, negar veladamente a competência feminina. Às vezes, enquanto vozes, até envelhecidas, ficam roucas de tanto reivindicar uma vida liberta de padrões opressores, a discriminação avança, independente de nível de desenvolvimento econômico e social.
Depois de ser eleita, em segundo turno, com o voto de mais de 55 milhões de brasileiros, era natural supor que a presidenta (sim, usarei o feminino) Dilma Rousselff tivesse capacidade suficiente para compor seu ministério, sem negar atenção aos partidos da coligação. Vencedora na sua primeira disputa eleitoral, majoritária e com o peso de representar duas gestões governamentais, era esperado que ela pudesse convidar pessoas (homens e mulheres) para trabalhar ao seu lado nos próximos quatro anos. E que todos fossem avaliados na função apenas quando começassem a exercê-la.
Como a 11ª mulher a ocupar o cargo de presidenta na América Latina (a oitava eleita, três assumiram interinamente), Dilma tem o aval da maioria da população para formar o seu ministério, escolhendo os 37 nomes para os cargos com status de ministério. E destes, nove serão comandados por mulheres. E se o feminismo não necessitasse prosseguir na sua luta pelos diretos e deveres iguais, o assunto estaria encerrado, temporariamente, até o início do governo e o acerto ou erro das medidas de cada um.
Mas, como a discriminação ainda resiste e existe (e este caso é apenas mais um exemplo), passou-se a questionar um dos nomes indicados, jamais pela sua competência, história profissional e sim pelo seu parentesco com um apoiador convicto da campanha de Dilma Rousselff. Desde a indicação de Ana Buarque de Holanda, uma das irmãs do Chico Lindo Buarque, para o Ministério da Cultura, cresce, na Internet, em conversa de bar e em redutos intelectuais e boêmios, os comentários maldosos de que ela só foi escolhida por ser irmã de Chico, que era uma dívida de Dilma com seu fã confesso e que seria apenas mais um dos nomes no mandato tampão da nova presidenta.
Ninguém pensa em pesquisar o currículo profissional de Ana. Ninguém supõe, pelos comentários, que Dilma não deve nada a Chico e vice-versa. Nem que Ana, assim como as outras mulheres que acompanharão a presidenta no primeiro escalão tem competência, capacidade e um amplo currículo justificando o convite ao cargo. Deixem para julgar depois se alguma delas fizer alguma burrada. Deixem para atirar a primeira pedra depois se acontecer algum rolo.
Mulher tem capacidade, inteligência, disciplina, método, ação, emoção, razão e perspicácia suficientes para cuidar de países, estados, municípios, colégios, faculdades, creches, hospitais, lojas, escritórios, indústrias, casas, filhos, amores e desamores.
Não precisa ser irmã de ninguém. Não precisa provar nada para ninguém. Não precisa ter cabelo crescido debaixo do sovaco. Não precisa ser feia. Não precisa ser mal amada. Nem bipolar. Nem encalhada. Ou avulsa. Ou sei lá o quê. Abaixo os rótulos, os dogmas, os preconceitos. Abaixo a discriminação. E se elas desempenharem bem seus papéis nos ministérios, por favor, não empurrem as vitórias para outros.

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