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No sufoco

DA EXISTÊNCIA ENGANOSA Morri dia doze de maiode setenta e seis. Meu último almoço (lembro bem)foi nesse dia. Meu último amigoperdi nesse dia. Meu …

DA EXISTÊNCIA ENGANOSA

Morri dia doze de maio

de setenta e seis.

Meu último almoço (lembro bem)

foi nesse dia.

Meu último amigo

perdi nesse dia.

Meu último retrato

data desse dia.

Meu último sorriso

sorri nesse dia.

Meu último poema compus nesse dia.

A timidez impediu-me de publicar o aviso fúnebre.

(Lara de Lemos, em ADAGA LAVRADA)

 

Explico o sufoco:

Hoje, 15, quinta-feira, acabo de chegar da cremação da Lara de Lemos e estou iniciando esta coluna. Tenho que escrever sobre Lara, uma das mais significativas e engrandecedoras relações da minha vida.

Estou mancando.

Há um mês, após cinco angiotomografias, fui absolvido em quatro e condenado a colocar stenters em ambas as pernas.

O diagnóstico chegou junto com o meu último livro (depois do penúltimo) saindo da gráfica.

Como angiolista e cardiologista, me afirmaram estar fora de risco iminente, pedi tempo para lançar o Almanaque do Camaleão no condomínio onde moro e depois da primeira cirurgia (perna direita), tomar providências em relação a outras praças.

Hoje, segunda, 18, oito amigos aqui do Novo Leblon, minha Aldeia afetiva, estão oferecendo um coquetel para o lançamento do Camaleão.

Respondi, com cópia para umas duzentas pessoas, ao ex-deputado paulista João Paulo Cunha, o que acho de um deputado que renuncia por corrupção, para não ser cassado e perder direitos políticos. Recebi dezenas de e-mails, não os publiquei, pois não eram comentários advindos da coluna.

Semana passada, a coluna O país dos Tiriricas, com o mesmo assunto do e-mail, recebeu comentários. Para evitar o “assunto findo”, aqui vão eles, exceto aqueles que tinham conotação eleitoral.

Do amigo, jornalista e escritor Altamir Tojal, recebi:

“Como faz falta o haraquiri. Há algum tempo, a quase totalidade de políticos japoneses apanhados em corrupção praticava o tradicional suicídio do país: o haraquiri.”

Assim começa a crônica escrita pelo amigo Mario de Almeida, comentando um e-mail recebido do ex-deputado federal João Paulo Cunha, agora reeleito para o mesmo cargo, ao qual renunciou quando descoberto ser um dos mensaleiros. E continua:

“Eu sempre sonhei que esse higiênico costume moral fosse entronizado no Ocidente. Fosse eu feiticeiro, poderia ter certeza que o feitiço virou-se contra mim. Quando o interventor e depois governador de São Paulo, Adhemar de Barros, começou a aceitar como slogan de campanhas ‘Rouba, mas faz’, comecei a entender que nascera em país errado.”

Para ler a íntegra da crônica:

http://www.estemundopossivel.com.br/

Ainda Altamir: Posso colocar no meu blog?

Assim como ele colocou no blog, entrou na Vitrine.

Bravo, Mano véio.  Rogério Fróes, ator, Rio.

Você tem toda a razão do mundo. Também tenho náuseas. Que tal Dinamarca ou Suécia? Nelson Gomes, publicitário, São Paulo.

Grato, Mario. Esse cara é petista inveterado, anda enrolado naquela bandeira vermelha. Abração, engenheiro José Carlos Pellegrino, São Paulo.

Mário, boa noite. É bem possível que você não consiga publicar todos os e-mails recebidos, mas até que seria interessante publicar uma lista com aqueles que compartilham de sua opinião. Meu nome já está aqui. Parabéns, valeuuuuuuuuuuuu! Edu (Eduardo de Almeida), sobrinho, corretor de imóveis, São Paulo.

Jovem Mário, bom dia!!! Penso em Saramago (vide Ensaio sobre a Cegueira et As intermitências da Morte). Entrego-te um tema para meditação. Não para crônica, embora fosse útil para todos os nossos a tua palavra. Quero que imagines a Imprensa em greve política.

Nenhuma notícia sobre políticos e política. Nenhum nome citado. Nenhuma instituição. Políticos e política silenciados. Por um dia, uma semana, uma quinzena, um mês, ad eternum. No mais tudo exposto: cultura, acontecimentos locais, nacionais e estrangeiros, o bem, o mal, o bom, o mau, produção e produto (sempre sem autores políticos), esporte, tempo, bem-estar e mal-estar, publicidade e tudo o mais… Moisés Andrade, arquiteto, Olinda, PE.

Estimado Mário,

Você não pode deixar de escrever sobre política, mesmo quando há motivos higiênicos: você vai fundo e enxerga longe. Abraços. Vivaldo Barbosa, ex-secretário de Segurança e  ex-deputado federal pelo Rio.

Lara de Lemos. Quem foi? Veja no Google. De mim, hoje, apenas uma coluna veiculada aqui em 04.10.2004. Nem mais uma palavra:

Na rua certa

Em novembro de 2003, a convite da Feira do Livro (de Porto Alegre), escrevi um texto e coordenei no Centro Cultural Erico Verissimo, a leitura coletiva, com membros do antigo Teatro de Equipe, do “Ato contra atos”, um vomitório público em cima dos ditadores, assassinos, psicopatas e signatários do Ato Institucional nº 5, o famigerado AI-5, que oficializou o país como um Estado homicida.

Terminado o Ato, Rafael Guimaraens, meu parceiro no Trem de Volta – Teatro de Equipe, livro da Libretos lançado no Porto Alegre em Cena daquele ano, e eu ainda autografamos alguns exemplares, inclusive para Zenir Ventura, cuja palestra nos precedera.

Na ocasião, um engenheiro e incorporador – Vinicius Galeaazi – deu-me notícias que estava construindo um edifício com o nome Lara de Lemos, e me pediu que fosse portador da notícia à minha antiga e sempre querida companheira.

Lara é uma das mais altas vozes da poesia gaúcha e brasileira.

Recatada no seu ofício poético, esquiva do lado mundano da fama, seu talento e mais de 10 obras publicadas ganharam o reconhecimento público e, entre muitos prêmios, vale citar os nacionais por Aura Amara (1968), Prêmio Jorge de Lima, do Instituto Nacional do Livro, e o Prêmio Nacional Menotti del Pecha, pelo livro Águas da Memória, em 1990, e o maior da literatura gaúcha – Açorianos de Poesia 2003 -– pela antologia organizada e comentada pelo professor Volnyr Santos, da editora VS e Instituto Estadual do Livro.

Em 21 de setembro, Paulo César Peréio, Paulo José e eu fomos a Porto Alegre e, juntamente com Milton Mattos e dezenas de antigos companheiros do Teatro de Equipe, recebemos das mãos de Margarete Moraes, presidente da Câmara Municipal, o Prêmio Qorpo Santo de Teatro.

Aproveitamos a oportunidade e Fernanda Mesquita, Vera Veríssimo, Milton Mattos, Paulo José, eu e outros amigos da poetisa fomos lá ver o edifício em construção e a belíssima placa – a cores e em degradé – que registra o nome do futuro edifício.

Lara, que teve filhos presos na Ditadura e que, em 1973, passou 30 dias detida, jamais se dobrou ao arbítrio e já revelara antes seu lado cidadã: juntamente com Paulo César Peréio, compôs, no Teatro de Equipe, em 1961, o Hino da Legalidade.

Minha longa e profunda ligação com Lara deixou um maravilhoso fruto, Eloí Flores da Silva, nosso filho adotivo, engenheiro agrônomo e professor universitário. O nome de sua filha, a “neta”, consagra todo esse elo de afeto: Lara Almeida.

Uma das minhas mais recentes “amigas de infância”, Valéria Lima, fotografou a placa e mandarei entregar as fotos para Lara, em Nova Friburgo, onde, vítima de acidentes, ela sofre uma velhice entrevada. Não quero terminar estas linhas chamado de avarento, sem dar uma amostra de um talento múltiplo, de mil facetas, que soube extrair o sumo exemplar de uma rica existência e doar o seu melhor quinhão:

Cela 23

Eis que me retornam vestes,

sapatos, óculos, relógios.

Bolsa povoada de lenços,

moedas, inúteis estojos.

Despojada de mim até aos ossos

não sei o que fazer de meus despojos.

(Do livro Inventário do Medo – Massao Ohno Editor, 1997.)

Antes que me esqueça: o Edifício Lara de Lemos está no seu espaço certo: Rua Olavo Bilac, 300.

Inté

Autor

Mario de Almeida

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