Se a Praça da Alfândega fosse minha, eu mandava ladrilhar, com pedrinhas de brilhante, para sempre abrigar a Feira do Livro. Caminhando ao longo da praça, ontem, compreendi como é emocionante o preparar a feira, cuidar da eletricidade, armar as barracas, pintá-las e, mesmo protegida das árvores que lhe dão vida o ano todo, observá-las por cima dos toldos que protegem os apaixonados da literatura das chuvas. O local ainda serve de moradia para aqueles que estão no mundo e perderam a viagem, mas logo eles se afastam porque estranham os novos vizinhos.
É que nessa Praça da Alfândega, durante a Feira do Livro, mora um anjo, que não se chama solidão. Ele costuma passear pelas barracas indicando os lançamentos, dando dicas de livros imperdíveis ou então ajudando a vasculhar nas conhecidas barracas de saldos. É o mesmo anjo que habita as mesas onde os velhos amigos se reencontram para bebericar, trocar idéias, discutir política e agora, vejam, o resultado do referendo. Às vezes, esse anjo se fantasia de menino de rua e distribui amendoim na esperança de ganhar um trocado.
Novas cores, novas nuances, tanta barraca esquisita nas ruas da praça onde jamais o Quintana passou. Mas agora que ele é poeira ou folha levada, no vento da madrugada, o poeta é um pouco do nada, suave mistério amoroso, praça do seu andar. A Alfândega mudou totalmente. Parece uma cidade dentro de uma cidade. É para lá que todos os olhos e intelectos se voltam. É lá que vamos buscar aquele livro por R$ 10,00 no sebo; o lançamento do autor do momento por R$ 35,00; e quem sabe algum do Caio Fernando de Abreu, por um preço intermediário.
Durante uns 15/16 dias, a praça abre seus braços ternamente para acomodar estes nossos eternos companheiros: os livros. E quem tem um livro, tem um tesouro. A Alfândega estende seu chão batido para acolher os visitantes, sempre ávidos pela novidade e nem sempre tão receptivos com quem lhes recebe tão bem. Mas, a praça está acostumada. São mais de 50 edições em que ela pisca seus olhos femininos quando deseja conquistar alguém para voltar. Ou 50 edições em que ela, como convém a uma mulher que deseja atrair, se faz de difícil e não dá chances do papo ir adiante.
Protagonistas tradicionais do evento não podem faltar. O campeão de vendas, o palhaço que faz graça, as crianças que vão em trenzinho visitar a Área Infantil para não se perder da professora, o pipoqueiro, as apresentações das escolas, as celebridades que sempre comparecem, e a chuva, que jamais deixar de dar o ar de sua graça. Mas, se a praça é do livro, ela também é do povo. E tem quem vá até a Alfândega, despida de seus personagens habituais, fazer não sabe o que. Aquele estilo “eu tava passando e não tinha muito o que fazer e vi que tinha movimento, mas o que está acontecendo aqui?”.
A Feira do Livro é o encontro daquele caso mal-resolvido; daqueles amigos que não se viam mais; é o reencontro daqueles colegas da faculdade que se perderam nas curvas da estrada de Santos; é a reunião dos intelectuais gaúchos que se juntam para discutir os novos rumos da intelectualidade (?); é também o encontro dos que se julgam intelectuais e acham que têm poder para mudar toda esta bosta que já tá armada desde que eu nasci; é o momento do político exercer sua profissão: cumprimentar todos. E, finalmente, é o ponto de encontro dos chatos. Parece que todos os chatos tomam o mesmo rumo. E haja paciência.
Ninguém, em sã consciência, vai deixar um chato atrapalhar esse momento lúdico de feira, livro, praça e amigos. Ah, vai lá. Despista o chato. Diz que vai ali na banca olhar o último livro de não sei quem e inventa o nome, senão periga do chato dizer que também quer comprar essa obra-prima. Não deixe nada te desviar da mesma praça, do mesmo banco, das mesmas flores, do mesmo jardim. E, em homenagem a Caio, de quem sempre levo alguma relíquia na feira: “-Alfa é meu nome – disse. E ele perguntou: Esse é seu nome de guerra ? E ele respondeu: –Não, esse é meu nome de paz”.

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