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Nós somos ela

Embora até possa parecer, a coluna de hoje não é sobre política. É muito mais. É sobre o descaso com a vida das mulheres. É sobre o desrespeito cruel com a vida das mulheres. É sobre quem incentiva o ódio pelo ódio. É sobre a misoginia que ainda persiste na nossa sociedade. É sobre o medo que alguns homens, enraizados e ainda respaldados por uma estrutura societária patriarcal, têm das mulheres. E que, por todos os motivos citados acima, e outros que evitarei para não alongar o lead ou a introdução, se acham no direito de seguir nesta fúria irracional de discriminação, preconceito e misoginia.

Sim, falo do recente caso do pré-candidato ao governo do Rio Grande do Sul pelo PL (e porquê eu iria me surpreender?), Luciano Zucco, fotografado no fim de semana durante a convenção do seu partido usando no peito um adesivo com o rosto de Manuela D’Avila (pré-candidata ao Senado pelo PSOL), riscado com um X vermelho, transformado em alvo. O material com uma mulher como alvo a ser atingido e banido, estava acompanhado de um “Anti-Manu”com o pronome feminino “ela” em destaque.

A atitude do pré-candidato é um desrespeito a vida de todas nós mulheres. É uma agressão que atinge todas nós. É um ato horrendo de misoginia. É a violência política de gênero explícita. Que precisa ser combatida.

Eu, como mulher, mãe, feminista, jornalista, defensora dos direitos humanos, militante dos movimentos sociais e que estive na presidência do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA), na gestão de 2019 a 2022, só posso afirmar que “nós somos todas Manuela”. Porque, quando uma mulher é atacada, todas nós nos sentimos também atacadas. Nós somos ela.

Talvez o pré-candidato não saiba, mas transformar o rosto de uma mulher em alvo tem uma simbologia que nós mulheres conhecemos muito bem. E que traz consigo um histórico concreto de violência que é alimentado com este tipo de atitude. Nojenta. Desrespeitosa. Preconceituosa. E como disse a Manuela, são tantas as violências presentes na tal imagem, que ela se deu ao direito de não as descrever. Mas nós sentimos todas.

Portanto, não é possível naturalizar a violência de gênero. Não é possível aceitar que o ódio e a misoginia continuem sendo usados para angariar votos. Enquanto mais mulheres seguem morrendo. Enquanto mais mulheres são agredidas. Enquanto mais mulheres são silenciadas. Em 2025, 1.568 mulheres foram assassinadas no Brasil por serem mulheres. Uma a cada cinco horas. E no Rio Grande do Sul, que lidera o ranking nacional de feminicídios, somente em 2026 já foram registrados 42 feminicídios.

Autor

Márcia Martins

Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editorias de Economia e Geral, e em assessorias de Comunicação Social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em diversas antologias, ex-diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors) e presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA) na gestão 2019/2021. E-mail para contato: [email protected]
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