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O amor não existe

O amor não existe. Não do jeito que as pessoas pensam. Amor não é uma geração espontânea explodindo do nada com a potência de uma singularidade pesando demais sobre si. Imagino mais ou menos como as pétalas de um dente leão se encostando no ar e vendo que juntas conseguem subir e descer em meio ao caos belo e aleatório.

Quis começar falando do amor porque amar exige coragem. Tanto amar alguém quanto amar a si mesmo. Acredito que um relacionamento maduro é aquele em que você descobre cada vez mais motivos para amar outra pessoa e para, também, apesar da pessoa, continuar a amando. Artur, esse texto é pra você e pra todos que vivem os bastidores complexos do amor de um relacionamento.

Artur é meio represa, às vezes. Guarda águas tumultuadas atrás de uma barragem construída com cuidado, lógica e responsabilidade. E eu me vejo como o castor que aparece ajudando a retirar alguns gravetos porque encarar uma emoção exige deixar as águas raivosas saírem pro fluxo de água se acalmar. Foi ele quem me ajudou a enxergar o quanto sou brilhante e único nos momentos em que eu só conseguia ver meu caos brotar dos meus olhos e molhar meus pensamentos. Não o amor porque ele tentou me salvar de mim mesmo. Ninguém além de mim tem esse poder. Mas porque ficou ali. Apoiando. Estando.

Também aprendemos isso entre os pequenos conflitos que formam uma vida. Quando implicamos um com o outro. Temos três cachorros, três gatos e duas tartarugas. E, ainda assim, toda vez que vejo ele brincar com um deles como uma criança que acabou de ganhar um novo amigo, eu fico pensando que é isso: menos futuro e mais presente na vida. Talvez porque o amor não seja concordar sempre. Talvez seja respeitar os acordos que construímos juntos mesmo quando preferiríamos fazer diferente.

E amor real é isso. É duro. Dói. Pesa. É contraditório. Tem dias cinzentos. Tem discussões acaloradas. Tem momentos em que os dois olham para caminhos diferentes e se perguntam se não seria mais fácil seguir separados. Mas, existe uma diferença entre facilidade e felicidade.

Nós já pensamos em mudar de rota. E, todas as vezes, acabamos descobrindo que nossos melhores planos continuam sendo aqueles desenhados lado a lado. Planos para o outro. Planos para nós mesmos. Planos para esse terceiro organismo que criamos sem perceber: o “nós”.

E eu sei o quanto ele merece tudo que conquistou e mais. Sei da dedicação, do estudo, das horas investidas, da competência que ele carrega em tudo o que faz. Mas a vida é mais sobe quem começou mais perto do ponto de chegada. Mérito existe e contexto também.

Eu vejo o professor que transforma uma sala de aula inteira usando uma camisa do Stitch. Vejo o biólogo que se encanta com baleias, formigas e tartarugas como se estivesse vendo cada uma delas pela primeira vez. Vejo o palestrante, o pesquisador, o profissional brilhante. Mas, principalmente, vejo o humano falho e atravessado por traumas que mesmo assim continua seguindo, tentando, como todos nós.

Artur ele me faz lembrar que eu também preciso olhar para mim com a mesma gentileza que ofereço aos outros. Estamos aprendendo que amor não é simbiose. Não somos duas metades procurando completar um vazio. Não somos organismos dependentes da existência um do outro para sobreviver.

Somos elementos diferentes compartilhando a mesma órbita. Corpos que se aproximam, se influenciam, se transformam e, ainda assim, preservam suas naturezas. Nos fundimos em alguns momentos. Nos complementamos em outros. E brilhamos mais quando lembramos que continuamos sendo quem somos. Nós somos as Crystal Gems em nossos universos (será que alguém pega a referência?).

Dizem que as estrelas que vemos no céu nasceram da fusão de elementos simples que, sob as condições certas, produziram algo capaz de iluminar o universo. Eu não acredito em almas gêmeas. Mas acredito em encontros improváveis que geram energia suficiente para iluminar uma vida inteira.

E, Artur, se o amor é um fenômeno biológico, químico ou cósmico, eu não sei. Só sei que, entre todas as espécies, ecossistemas e maravilhas naturais que você me ensinou a admirar, a minha favorita continua sendo esta: a que surgiu quando dois organismos teimosos decidiram evoluir juntos.

Com amor, Luan

Autor

Luan Pires

Luan Nascimento Pires é jornalista e pós-graduado em Comunicação Digital. Tem especialização em diversidade e inclusão, escrita criativa e antropologia digital, bem como em estratégia, estudos geracionais e comportamentos do consumidor. Trabalha com planejamento estratégico e pesquisa em Publicidade e Endomarketing, atuando com marcas como Unimed, Sicredi, Corsan, Coca-Cola, Auxiliadora Predial, Deezer, Feira do Livro, Museu do Festival de Cinema em Gramado, entre outras. Articulista e responsável pelo espaço de diversidade e inclusão na Coletiva.net, com projetos de grupos inclusivos em agências e ações afirmativas no mercado de Comunicação. E-mail para contato: [email protected]
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