Há dois anos, na bucólica Butiá, na sua casa ensolarada e com um pátio repleto de árvores frutíferas, mamãe recebia familiares, agregados dos familiares, amigos e amigas de Porto Alegre e da cidade da Região Carbonífera, para comemorar os seus 76 anos. A mesa de madeira de lei e imensa, colocada estrategicamente nos fundos da casa, mostrou-se pequena para acomodar todos os convidados da Mirthô Peçanha Martins. No entanto, de tamanho ideal para receber os pratos preparados pela mamis para a sua festinha. Um legítimo churrasco do interior, assado pelo neto Rafael, com arroz, aipim, feijão, farofa, saladas de todos os tipos e uma comida mexicana especial para as gurias Gisela e Shirley.
Mamis já não estava na sua melhor forma. Aliás, a sua ida para Butiá foi para ficar mais perto do filho Fernando e da nora Flávia, porque em cidade do interior ainda se encontra tempo para ser mais disponível e eles passariam a cuidar da mãe com uma freqüência diária e constante. A saúde apresentava cicatrizes indeléveis de quem tem mais de 70 anos. Mesmo assim, com as dores de quem já escrevera muita história na sua vida, mamãe distribuía sorrisos, preocupava-se em ser uma perfeita anfitriã, convidava todos para ficar mais tempo.
No último aniversário que comemorou com os seus, mamãe foi extremamente eficiente e carinhosa, características que sempre lhe acompanharam, até 4 de julho de 2011, quando optou por desistir de brigar contra o peso dos anos e partiu. Naquele belo domingo, mamis teve um aniversário inesquecível, com o último neto Lucas, de apenas dois meses trocando de colo entre as mulheres. Com a neta Camila esnobando a barriga de quase oito meses de gravidez do bisneto que ela conheceria um mês depois. Com a bisneta Lohana saltitando pelo pátio enorme. Com o filho e a nora cuidando de todos os detalhes e as filhas Márcia (eu) e Sílvia aproveitando todos os carinhos.
Neste 17 de abril de 2013, lembro especialmente de mamis. De pequenos detalhes que jamais são esquecidos entre mães e filhas. Do beijo da mãe depositado na testa da filha toda a noite antes de dormir. Do ato cotidiano da mãe de estender a coberta sobre o corpo da filha para o caso de esfriar na madrugada. Das estórias e dos contos de fadas que a mãe repete para a filha e que são reproduzidos geração após geração. Neste 17 de abril de 2013, recordo-me principalmente de mamis. De pequenos gestos que jamais são esquecidos entre mães e filhas. Como a receita de bolo de milho para o chá da tarde. Como o aprendizado de um blusão de tricô. Como a conversa sobre o primeiro namorado. Como a conversa sobre o primeiro emprego.
Desejaria muito ter a minha mãe ao meu lado para comemorar os seus 78 anos. E de novo rever a sua preocupação de anfitriã. Mais uma vez cantar a música repetida do parabéns a você. Novamente entrar de loja em loja, até cansar, para escolher um presente diferente do dado no aniversário anterior. Queria muito ter a minha mãe ao meu lado para festejar os seus 78 anos. E contar para ela que a neta Gabriela já está no terceiro semestre da faculdade, que se empenha em buscar estágios para ter o seu dinheiro. E relatar que a neta Gabriela é um amor de filha e que ela só teria orgulho da minha rebenta. E falar para a mamis das travessuras dos outros netos.
Por isso, repito mais uma vez, quase em tom de profecia conselhos já passados em colunas anteriores: aproveitem todos os momentos ao lado dos familiares, deixem as brigas babacas e que prejudicam os relacionamentos para trás e sempre se despeçam com um sincero e verdadeiro “eu te amo”. Porque nem sempre se consegue ver o tempo brincando ao redor e porque se o tempo não para e não envelhece. Mas as pessoas sim. E a saudade é sempre eterna.

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