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O Arcanjo e o Veleiro

São dois campanários semelhantes, monumentos de diferentes épocas e da memória das cidades das quais se tornaram símbolos: em Buenos Aires, a Torre Monumental …

São dois campanários semelhantes, monumentos de diferentes épocas e da memória das cidades das quais se tornaram símbolos: em Buenos Aires, a Torre Monumental e em Veneza, o Campanile di San Marco. À sombra destas altas torres, estórias fascinantes aconteceram, mas nem sempre, exemplares.

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A Torre Monumental era originalmente chamada de Torre dos Ingleses; está plantada no bairro do Retiro, na atual Praça da Força Aérea Argentina (antiga Plaza Britânia), junto à Calle San Martin e Avenida del Libertador. Durante muito tempo foi a porta de entrada da cidade, pela proximidade com os terminais de trens, do porto e do antigo Hotel dos Imigrantes, hoje convertido em museu.

O campanário foi erigido em 1910, na celebração do centenário da Revolução de Maio, como oferta das tradicionais famílias inglesas, cuja ancestralidade se confunde com a história de Buenos Aires.

A Torre dos Ingleses teve o nome alterado para Torre Monumental, quando a Argentina passou por tempos de exacerbado nacionalismo provocado pela guerra das Malvinas. Grupos de vândalos atacaram o monumento, considerado um símbolo do expansionismo colonial inglês. A depredação não poupou nem mesmo os quatro mostradores originais de opalina branca do relógio, que ficam a 75 metros de altura. Mas, curiosamente, os verdadeiros símbolos do Império Britânico sobreviveram àqueles tumultuados dias.

A torre foi construída ao estilo paladiano, típico do século XVI, e ainda ostenta os emblemas das construções inglesas da época: a flor de cardo, a rosa dos Tudor, o dragão vermelho de Gales e o trevo da Irlanda. Também lá permanecem os grifos mitológicos e o desenho do sol, o mesmo sol que iluminava permanentemente o vasto Império Britânico. E os cinco sinos do campanário até hoje repetem os mesmos toques da Abadia de Westminster, de Londres. A cúpula é coberta por lâminas de cobre e no cume foi instalada a réplica de uma fragata de três mastros. Mas, mesmo estudiosos da arquitetura de Buenos Aires, não conseguem explicar a presença de um veleiro da época isabelina, no alto da Torre Monumental. Ou, como preferem os guias de turismo e os taxistas da cidade, da Torre dos Ingleses.

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O Campanile di San Marco foi erguido junto à Basílica de San Marco, como posto de vigia e de farol para os navios mercantes que chegavam do Oriente, carregados de especiarias. Foram precisos 500 anos para sua construção e seus símbolos contam a história da República de Veneza. O quadrado que abriga os cinco grandes sinos está decorado com as figuras de leões alados e de uma mulher, que personifica a  Justiça. Nos nichos entre as colunas, as estátuas de Minerva, Mercúrio, Apolo e da Paz, ali colocadas para iluminar os destinos da Serenissima. Mesmo se acreditando que os antigos doges tenham se inspirado em seguir os ensinamentos de Minerva e Mercúrio, nem sempre os da Paz e da Justiça foram sua maior preocupação.

No cume do campanário, acima de todos os símbolos, foi instalada a figura dourada do arcanjo Gabriel. De acordo com os venezianos, ela vela pelo apóstolo Marcos, que repousa em uma arca de mármore na cripta, debaixo do altar-mor da basílica. No dia 21 de agosto de 1609, Galileo Galilei subiu ao alto da torre para demonstrar seu telescópio ao doge de Veneza, Antonio Priuli. Que não teria ficado impressionado com a invenção, mesmo quando convidado           a admirar as quatro luas de Júpiter e os anéis de Saturno. Na época, se comentava nas ruas que a invenção de Galileo era coisa do demônio, porque fazia as pessoas enxergar coisas que não existiam.

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A torre também teve seus dias trágicos. Em 1797, quando invadiu a Itália, Napoleão Bonaparte ordenou a remoção dos quatro cavalos de bronze de San Marco da Basílica e os levou para Paris, onde ficaram por algum tempo, no topo do Arco do Triunfo. Reza a lenda que os soldados franceses também tentaram remover os sinos do campanário, mas desistiram depois de estenuantes dias de trabalho.

O fracasso da empreitada foi creditado pelos venezianos à proteção do arcanjo alado. Muito embora os sinos tenham sobrevivido ao saque dos franceses, e mesmo sob a proteção do arcanjo, a grande torre passou por desastres naturais e provocados, como terremotos e incêndios.

Cerca de 100 anos depois de Napoleão, prevaleceu a fúria da natureza – atingido por um raio, o campanário desabou e os sinos foram reduzidos a milhares de pedaços. Mas o sino maior, chamado de Marangona, que soava nas celebrações e festas solenes, sobreviveu milagrosamente.

No mesmo dia, o conselho de anciões de Veneza se reuniu e ordenou a reconstrução imediata do monumento, determinando que os sinos fossem refundidos, usando-se os fragmentos de bronze espalhados pela piazza. Ficou então famosa a expressão usada pelo prefeito da cidade para incentivar os arquitetos e operários:

“- Dov’era e com’era” – “Onde era e como era”.

A reconstrução foi completada no dia 25 de abril de 1912 e os sinos voltaram a tocar no alto do Campanile, exatamente mil anos depois do lançamento da pedra angular. E, não por acaso, no dia de São Marcos Apóstolo, o padroeiro de Veneza.

Mais uma curiosa coincidência ligando a história das duas torres: também em um mês de abril, 70 anos mais tarde, tropas argentinas invadem as Ilhas Malvinas e a Torre dos Ingleses é depredada em nome das paixões do nacionalismo.

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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