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O canudo de Gabriela

Ao ver a minha filha Gabriela Martins Trezzi receber, na noite de terça-feira, o seu diploma de conclusão de Ensino Médio, percebi, com felicidade …

Ao ver a minha filha Gabriela Martins Trezzi receber, na noite de terça-feira, o seu diploma de conclusão de Ensino Médio, percebi, com felicidade imensurável e uma preocupação indescritível, que encerrei um ciclo importante de minha vida. A partir de agora, ela escreverá, com as suas próprias palavras e expressões o meio da sua história e planejará o fim do seu destino, sempre amparada naquilo que lhe ensinei no início de tudo. E, devo adiantar para aqueles que ainda não experimentaram este rito de passagem da vida de seus filhos: é uma das emoções mais intensas e recompensadoras. A sensação de dever cumprido num latifúndio nem sempre bem dividido entre todos os responsáveis pela cria.

A felicidade imensurável explica-se porque educar sozinha uma filha de 17 anos, que encanta todos pela sua beleza e vivacidade, é uma tarefa árdua, que, às vezes, exige a elevação do tom de voz, a cobrança diária, o controle dos deveres de casa e a intromissão demasiada na rotina. E, poucas, pouquíssimas vezes, inclui elogios, relaxamento das cobranças, aplausos e outras demonstrações de satisfação. Na hora de educar, o elogio pode parecer despreocupação com a continuidade dos bons resultados. Mais do que tudo, educar corretamente uma filha (e acho que tenho PhD nisso) é um ato fecundo de desprendimento, de equilíbrio entre a liberdade e a eterna vigília.

Posso afirmar, sem medo de ser contaminada pelo lado coruja de toda mãe que se preze, que a história de minha filha começa com os ingredientes para ser sucesso de público e de vendas. Afinal, em onze anos de estudos (sem contar o tempo de creche), a minha ex-pequena nunca repetiu um período escolar, normalmente tirou notas boas, nada de exageros, mas com oscilações negativas em Matemática e Física (assim como eu, deve ser a herança maldita) que não lhe renderam a desaprovação. E, nestes onze anos, destacou-se pela fidelidade aos amigos, pela persistência e pelo empenho que dedica às causas que abraça, sejam elas no voluntariado ou obrigações escolares.

Assim, Gabriela já distribuiu abraços na Redenção em algum Dia da Solidariedade; saiu endoidecida pela cidade para cumprir as tarefas das gincanas; levou ovos de páscoa para serem entregues para alguma população carente. E minha filha foi a todos os passeios dos dois colégios, participou dos trabalhos de grupo, dos acantonamentos, das reuniões e dos desafios. E em algumas vezes me importunava, sem folga, perguntando por que precisava saber a função dos transmissores, a freqüência das ondas e várias incógnitas que lhe perturbaram, especialmente nos três anos de Física no Ensino Médio. Mas tudo isso compensa demais ao ver a adolescente abanando o canudo lá do alto do palco da formatura.

Mas, a preocupação torna-se também indescritível porque se percebe que ela estará mais exposta aos perigos das decisões solitárias; à maldade que impera no cenário competitivo; aos desafetos do mundo adulto e à raiva dos fracos e infelizes. Significa que caminhará com os seus pés e que não estaremos mais, diariamente, a tirar as pedras do caminho. E que o bebezinho, a menininha, a criança de olhos claros e olhar inquisitivo ficou, definitivamente no passado, nas fotos do álbum de recordação, na memória dos nossos melhores dias.

Enquanto não experimento a emoção de ver seu nome em alguma lista de vestibular, peço desculpas a minha filha pelas inúmeras vezes em que fui uma mãe chata, cobradora, que não descuidava um só minuto das cobranças escolares. Valeu a pena. E dou um conselho às mães que ainda não presenciaram seus filhos com um diploma na mão: preparem os lenços por que vocês vão chorar muito. E todas as lágrimas também valeram a pena.

Autor

Márcia Martins

Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editorias de Economia e Geral, e em assessorias de Comunicação Social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em diversas antologias, ex-diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors) e presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA) na gestão 2019/2021. E-mail para contato: [email protected]
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