Em uma série de reportagens iniciada neste domingo, Zero Hora resgata o noticiário do Caso Daudt, ao se completarem 20 anos do enigma que abalou a cidade. Elaborada com competência e profissionalismo, sem a superveniência de nenhum sherloque tardio, a matéria devolve com precisão, aos leitores de hoje, a atmosfera conturbada daqueles dias em que o enigma foi gerado.
Jornalista combativo e destemido, Daudt não levava ninguém de compadre, mas não sei se foi isso que o matou. Com toda a certeza, porém, o impacto do seu assassinato, com repercussão internacional, tumultuou as investigações e sepultou a verdade.
Lembro-me muito bem daquela noite de 4 de junho de 1987, quando Antônio Armindo Ranzolin me ligou, convocando-me ao microfone. Era sábado, minha folga no então Gaúcha na Madrugada, mas a rádio manteria a cobertura até o presumível esclarecimento do caso, esperado para as próximas horas.
Não foi que aconteceu. Tão logo cheguei à emissora, pressenti que não seria assim pela semelhança que o tumulto guardava com o Caso Kleemann, outro crime arquivado entre os insolúveis nos anais da Polícia gaúcha.
Nos dois episódios já havia uma versão à espera dos investigadores. No Caso Kleemann, foi alimentada por adversários políticos, nas ardências da campanha eleitoral
A partir daí, as contribuições naturais de bons e maus samaritanos, dos palpiteiros de plantão e dos profetas de ocasião somaram-se a quizílias político-partidárias, e o tumulto desviou os olhares de pequenos detalhes que poderiam dar rumo certo às investigações.
Quem tinha razão no meio de toda aquela polvadeira era o então governador do Estado, Pedro Simon, hoje senador. Desejava dar tempo à Polícia para aprofundar seu trabalho, mas as pressões do momento não deixaram que sua opinião prevalecesse.
Alguns dias depois, outro assassinato, na Zona Sul da cidade, cometido em circunstâncias parecidas. Havia uma espingarda 12 de cano serrado, o boné de caçador, a barba peculiar do matador. Nenhuma vinculação foi feita entre os dois casos. A segunda vítima não gozava da mesma notoriedade de Daudt. Sua morte sumiu na rotina do noticiário.
Se me perguntarem o que penso a respeito do Caso Daudt, não tenho opinião sobre autorias. Jornalismo não se faz com conjunções condicionais – se isso e aquilo ou aquilo outro. Vira especulação.
Aliás, o que mais se fez naquele sábado à noite.

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