
Ao longo da linha de tempo da História, alguns episódios parecem destinados a se repetirem de tempos em tempos, provocados pelas mesmas causas e com as mesmas consequências. Esta perturbadora análise pertence à historiadora norte-americana Barbara W.Tuchman, falecida em 1989. Ela ainda lembrou que as repetições ocorreram quase sempre no mês conhecido como um dos mais cruéis do ano – Outubro.
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É um mês pródigo em eventos resultantes de ações políticas e militares equivocadas, mas predestinadas a retornar ao longo dos anos, em novas cores e na pele de outros protagonistas, em inegável demonstração de que a raça humana, não aprende com os erros cometidos por seus antepassados – recentes ou longínquos.
Em outubro de 1066 tem início a invasão normanda da Inglaterra, o que desenha o mapa da Europa pré-medieval. Tambem em outubro, no ano de 1806, ocorre a Batalha de Trafalgar, onde Nelson derrota a Grande Armada, frustrando a invasão napoleônica. E o jogo político muda mais uma vez.
No ano de 1845, durante a guerra da Criméia, no dia 25 de outubro, ocorre a célebre carga da Brigada Ligeira. A briosa cavalaria inglesa investe com espadas desembainhadas contra a artilharia turca, bem posicionada no alto das colinas. Um erro (ou estupidez?) de estratégia militar que abalou o Império Britânico, mas que voltaria a se repetir em outros tempos e outras latitudes.
Quase 100 anos depois, já em 1938, as tropas de choque de Hitler ocupam a Checoslováquia e a Europa vê as nuvens da guerra no horizonte. Outubro mais uma vez transforma o destino das nações e dos povos. No Oceano Pacífico, em 1944, acontece o maior confronto naval da história no Golfo de Leyte. A poderosa frota imperial japonesa, com velhas táticas do século 18, enfrenta as armas do século 20. A batalha final foi travada a 25 de outubro e muda a maré da guerra, abrindo caminho para a ofensiva final norte-americana.
No mesmo século, episódios semelhantes, repetindo equívocos políticos e estratégicos, com as consequências de sempre: a perda de centenas (ou milhares) de vidas.
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Cerca de 500 anos antes, um emblemático evento – e novamente em 25 de outubro – ficou assinalado como uma saga de bravura e também pela mortandade, provocada por arrogância política e despreparo militar. No dia de São Crispim e São Crispiniano de 1415, ingleses e franceses lutaram até a morte em Agincourt, no norte da França. O pequeno e exausto exército inglês era liderado por Henrique V (no cinema, o rei ganhou a face de Laurence Olivier e de Kenneth Branagh).
Do lado oposto, Charles d’Albret, duque de Orléans, comandava uma numerosa infantaria, com o apoio da elite da cavalaria francesa, recrutada pelo rei Carlos VI para humilhar e expulsar os invasores. A batalha foi decidida pelos grandes arcos ingleses, que alvejavam os cavaleiros franceses à distância. E Henrique V ganhou a ajuda do temporal, que transformou a planície de Agincourt em um lodaçal, imobilizando a cavalaria francesa. Os orgulhosos nobres de Carlos VI, carregando escudos, armaduras e bandeiras de guerra, foram cercados e atacados com machados e foices, pelo enfurecido “bando de irmãos” de Henrique V.
O incidente, dramatizado por William Shakespeare, plasmou uma cena célebre: a do discurso do Dia de São Crispim. Nele, o rei conclama seus 6 mil soldados a enfrentar os 24 mil franceses, com o brado: “Quanto menor o número de homens, maior o quinhão de glória”.
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Barbara Tuchman usa acontecimentos como este para ilustrar que, tanto os vencidos do século 14, como os dos séculos seguintes, compartilham do mesmo equívoco – comandantes sem capacidade em comprender a tecnologia das novas armas ou acompanhar a evolução das estratégias militares.
E, como sempre acontece ao longo da história, as lições chegam tarde demais para os vencidos: flechas e obuses de longo alcance derrotam a cavalaria; submarinos e aviões torpedeiros afundam encouraçados.
Apesar de relembradas pelos poetas, as lições de outubros nunca são aprendidas.
“Das profundezas do bem e do mal
O mistério que ainda me liga:
À torrente ou à fonte,
Ao rochedo vermelho da montanha,
Ao sol que girou ao meu redor
Em seu outono tingido de ouro,
Ao relâmpago no céu
Que passou voando por mim,
Ao trovão e da tempestade,
E à nuvem que tomou a forma
(Enquanto o resto do céu era azul)
Dos demônios deste outono”.
Edgar Allan Poe
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