
Faltando pouco mais de um mês para as eleições de 2026, um fenômeno chama a atenção: mesmo com a definição de todos os candidatos, uma parcela importante dos brasileiros já demonstra pouco interesse pelo processo eleitoral.
Esse comportamento não significa que as pessoas deixaram de votar. O voto continua sendo obrigatório. O que mudou foi a relação do eleitor com a política.
Cada eleição registra um volume expressivo de abstenções, votos brancos e votos nulos. Em 2018, esse conjunto representou cerca de 29% do eleitorado no primeiro turno da eleição presidencial. Em 2022, permaneceu em torno de 28%. Embora os percentuais oscilem pouco, eles revelam um contingente de milhões de brasileiros que, por diferentes razões, não transformam o voto em participação política efetiva.
Por trás desses números existe um sentimento que aparece de forma recorrente nas pesquisas de opinião: a desesperança. O eleitor convive diariamente com o aumento do custo de vida, percebe que seu dinheiro compra menos e sente dificuldade para enxergar melhorias concretas na saúde, na educação, na segurança e na infraestrutura. Aos poucos, instala-se a sensação de que os problemas permanecem independentemente de quem governa e o pior, sempre há políticos envolvidos em escândalos de corrupção.
Quando essa percepção se prolonga, ela produz um efeito silencioso. A política deixa de ser vista como instrumento de transformação e passa a ser encarada apenas como mais uma disputa entre grupos de poder. O resultado é a desconfiança.
Essa realidade também pode ser explicada pela cultura política brasileira. Diferentemente de países onde a participação comunitária faz parte da rotina dos cidadãos, no Brasil o envolvimento cotidiano com organizações de interesse coletivo é reduzido. A maioria das pessoas não participa de associações de bairro, sindicatos, entidades de classe, movimentos comunitários ou partidos políticos. Uma pesquisa realizada pelo IPO, Instituto Pesquisas de Opinião, identificou que 87% dos gaúchos não participam de nenhuma instituição com conotação política. Ou seja, para a maior parte da população, a política só entra em pauta quando a eleição se aproxima.
É justamente por isso que o interesse eleitoral costuma crescer lentamente ao longo da campanha. Hoje, 43% dos gaúchos afirmam estar interessados nas eleições, enquanto 28,6% dizem não ter interesse e outros 27,9% afirmam ter um interesse razoável.
O perfil também ajuda a compreender esse comportamento. O interesse é maior entre homens, pessoas com mais de 60 anos, eleitores com ensino superior e renda mais elevada. Já o desinteresse cresce entre mulheres, jovens, pessoas com menor escolaridade e menor renda. Outro dado chama atenção: os eleitores que se identificam claramente com algum campo ideológico, seja à esquerda ou à direita, demonstram muito mais interesse pelo processo eleitoral do que aqueles que não se posicionam politicamente.
Durante muito tempo, bastava apresentar propostas. Hoje, antes de convencer, é preciso despertar atenção. Antes de pedir o voto, será necessário fazer com que parte do eleitorado volte a acreditar que a política pode produzir mudanças concretas.


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