Porto Alegre, cidade que eu adoro, sempre me surpreende nos domingos. Invariavelmente. Há anos que isso acontece. Quando eu penso que o dia católico destinado ao descanso (que palavrinha estranha ao meu vocabulário) será exatamente como eu planejei, pronto. Reversão de expectativas. Tudo acontece do modo contrário. O domingo é o dia do passeio no Brique, de ir ao cinema com minha filha Gabriela, de ver a família, de receber o carinho dos sobrinhos, de programar a semana, de conversar com as amigas e se vale propaganda, também de assistir ao Chico Buarque, no Multishow (às 22h, não percam).
Nem sempre o primeiro dia da semana (sim, ela não começa na segunda, como bem diz o nome) resolve seguir o ritual descrito acima que me agrada demais, compreendem? Como uma jornalista que se preze, domingo também é dia de plantão. Pois aí é que mora o perigo. Dependendo do turno em que se está de plantão e da editoria, o que era para ser um exercício diário da profissão escolhida pode transformar-se na pior tortura. Mesmo para quem levantou com o pé direito, tomou um bom café da manhã, curtiu parte da rotina matinal com a família e ainda fez por merecer um belo galeto com polenta no almoço (mama mia).
O ditado já dizia. Quando a esmola é demais, o santo desconfia. Escalada para fazer o plantão de polícia, entrei toda confiante na redação. Uma única certeza me acompanhava. Ninguém. Mas ninguém mesmo, por mais louco ou “fora da casinha” que estivesse faria qualquer bobagem com um sol lindo daqueles se derramando sobre a minha Porto Alegre. Logo, seria um plantão mais tranqüilo. Poderia até tomar um cafezinho na esquina, entre uma rodada de telefonemas para as DPs e BPMs, ler calmamente o jornal, conversar, olhar o jogo, que coisa boa!
A primeira hora foi de sossego. Mais calmo que “água de poço”. Para que fui falar… Ao retomar a ronda, fui informada de uma ocorrência perto da Santa Casa e a viatura ainda se encontrava no local. Dentro de uma boca de lobo, embaixo de um vão da elevada que liga a rua Annes Dias com a Duque de Caxias, enrolado em uma blusa vermelha, cor puxando para o bordô, foi encontrado um feto de aproximadamente seis meses de gestação. O morador de rua achou o bebê morto ao procurar madeira para fazer o fogo para um churrasquinho de domingo, porque o dia se presta para essas confraternizações.
Habituados a lidar com fatos como esses, os policiais já aprenderam e não demonstram tanto sofrimento. Para a Editoria de Polícia, que acumula notícias de casos mais horrendos, é mais um feto abandonado por uma mãe sem juízo. Não há nenhum tom de julgamento nisso. Mas eu, ainda uma novata nos plantões de polícia, me choquei muito com a cena. Em pleno domingo de sol em Porto Alegre. Na cidade que sorri escancarada para seus habitantes. No mês de maio. Na semana após o Dia das Mães. Não é possível. Definitivamente, o cenário não combina com um dia de domingo.
Protegido apenas por duas sacolas plásticas de um supermercado qualquer, o feto estava distante poucos metros de onde ficava, no passado que se tenta esquecer, a Roda dos Expostos, na Santa Casa de Misericórdia, local apropriado para o depósito de crianças nascidas e que seriam posteriormente abandonadas pelas mães. No presente que, às vezes, insiste em nos surpreender, o feto estava distante poucos metros de onde o morador de rua que o encontrara minutos antes assava o seu churrasquinho e batia papo com os amigos.
Uma espécie de parede improvisada para dividir o ambiente que separava o local onde o feto aguardava a chegada do DML e a casa do morador de rua era feita com uma colcha azul escura enfeitada de ursinhos coloridos com modelos infantis, daquelas que as mães carinhosamente colocam nos berços de seus filhos.

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