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O doce mais doce

Por José Antonio Moraes de Oliveira

 

 “O doce perguntou pro doce

qual era o doce mais doce…”.

 

                      Quadrinha popular.

Naquele tempo, o cais de Porto Alegre se agitava com os navios cargueiros que chegavam com os porões abarrotados de trigo argentino. A turma dos escritórios de navegação da Avenida Mauá varava suas noites trabalhando na liberação, desembarque e estocagem das sacas de trigo nos grandes armazéns. Mas havia uma recompensa, dividida entre poucos felizardos – os “regalitos” que os marinheiros traziam de Buenos Aires para os colegas gaúchos.

Eram potes e potes de Dulce de Leche que recheava os famosos Alfajores Havanna. Nosso pai tinha bons amigos na Navegação Dodero, fretadores dos cargueiros “Presidente Perón” e “17 de Octubre”, que tinham preferência na hora de atracar.

A festa continuava em nossa casa, quando o pai chegava com um grande pacote debaixo do braço. A gente já sabia da surpresa – eram caixinhas com as letras “Havanna” em vermelho e amarelo com recheio de doce de leite. Brincalhão, o pai distribuia as iguarias, imitando o “speaker” da Rádio Belgrano:

“- Estos son los legitimos alfajores Havanna,

preciosas galletitas rellenas com el más puro

dulce de leche dos pampas de Argentina”.

Ele discordava da mãe que dizia que “O doce mais doce  é o doce de barata doce”, contando mais uma vez da estória como surgiu seu doce favorito, o doce de leite:

” – Os portenhos me contaram que foi na estancia “La Caledonia”, na província de Buenos Aires. Aconteceu quando a criada do ditador Juan Manuel de Rosas preparava uma Lechada – uma mistura de leite quente com mel e açúcar – que o general gostava de usar no chimarrão.

Rosas estava à espera do general Juan Lavalle, para negociar o fim da sangrenta guerra civil que assolava a Argentina. Lavalle chegou cedo à fazenda, cansado pela longa cavalgada. Como não encontrou Rosas, deitou-se em sua cama para uma tirar uma “siesta”.       

A criada de Rosas entra no quarto e se depara com Lavalle pelado na cama de seu patrão. Sai correndo e gritando pelos guardas. Mas logo o mal-entendido fica explicado e ela volta à cozinha onde encontra sua Lechada virada em uma massa espessa e dourada.  Serve assim mesmo aos dois generais, que aprovam e pedem mais. Estava inventado o Dulce de Leche”.

***

Em Buenos Aires, não se deve duvidar desta estorieta. Os argentinos rejeitam versões que o dulce de leche teria sido criado no Uruguai ou no Chile, onde se chama Manjar Blanco. Ou que foi inventado no México, chamado de Cajeta. 

Enquanto isso, os franceses juram que o doce nasceu na França, por obra de incidente semelhante, que aconteceu na cozinha de campanha de Napoleão Bonaparte. Assim, o indômito corso teria propiciado mais um benefício à História, além do Código Civil.

***

 

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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