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O El Cid maldito

“Entrei em uma terra mística, dominada por alquimistas, magos e santos.” (George Orwell) Certas crendices e lendas antigas, por estranhas e inexplicáveis coincidências, foram e …

ja“Entrei em uma terra mística, dominada por alquimistas, magos e santos.” (George Orwell)

Certas crendices e lendas antigas, por estranhas e inexplicáveis coincidências, foram e ainda são cultivadas em lugares distantes entre si e que pouco – ou nada – têm em comum. Os pioneiros ingleses e holandeses que chegavam à Nova Inglaterra eram assombrados por um cavaleiro sem cabeça, que montava uma besta com olhos em chamas. Personagem não muito diferente      da mula sem cabeça que botava fogo pelas ventas das lendas     dos sertões brasileiros. Seriam reencarnações do cavaleiro medieval que vagava pelas planícies da Espanha, conhecido como Conde de Arnau?

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Bafejada por brisas amáveis e iluminada pelo sol mediterrâneo, a Catalunha esconde sombrias lendas da antiga Ibéria. Em suas plaças e nos tortuosos carrers do Barri Gòtic de Barcelona, o viajante tropeça em vestígios deste misterioso personagem, que passou à História como El Cid de Lleida, por suas façanhas na guerra de reconquista contra os mouros. Arnau Mir de Tost foi um guerreiro libertador, que tinha proteção papal e que construiu conventos, igrejas e abadias. Apesar disso, a tradição oral catalã o reduziu a um ente diabólico, invocado por matriarcas para assustar crianças malcriadas. Talvez as mesmas pias mulheres que rezam ao pé de La Moreneta, como é conhecia a Virgem Negra de Montserrat.

E é justamente aí que religião, crendices e fantasias se misturam e se contradizem. Pois não foi outro, senão o amaldiçoado Conde de Arnau, que fez construir o mosteiro que até hoje abriga a padroeira de Barcelona. As lendas avançam no passado profundo, quando contam que a imagem da Virgem de Montserrat foi esculpida pelo apóstolo São Lucas e, mais tarde, levada pelo próprio São Pedro para Roma e que teria sido deixada pelo caminho. Não por acidente, na Catalunha.

Os escritos contam mais – no século VIII, durante a invasão muçulmana, devotos ocultaram a santa em uma caverna, de onde foi resgatada 200 anos depois, por El Cid de Lleida. O mesmo que participaria, em 1068, da assembléia que promulgou o código feudal que durou 700 anos.

Católico assumido, o El Cid de Lleida fundou uma abadia na vila de Ager, onde pretendia entronizar a estátua da Virgem. Mas dizem que a imagem, de tão pesada, se tornou inamovível e impossível de transportar. O conde então ordenou ao bispo de Catalunha erigir um mosteiro em Monistrol de Montserrat – onde está até hoje.

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Lendas e tradições religiosas costumam se fundir ao longo da história. Desde o século XV, a Catalunha venera São Jorge como padroeiro e protetor, como atesta o medalhão de pedra na fachada da sede do governo catalão, o Palau de la Generalitat. Ali vê-se um cavaleiro em seu cavalo branco, salvando uma donzela e um cordeiro das garras do dragão. Quase igual aos medalhões que existem nas portadas dos castelos e abadias, construídos por Arnau Mir de Tost.

Como se coincidências não fossem suficientes, um manuscrito oficial, o antigo Llibre Vermell, dos arquivos da Abadia de Montserrat, põe mais lenha na fogueira:

“Él fue castigado a cabalgar eternamente, sobre un diabólico corcel que se alimenta de condenados. El conde Arnau sigue cabalgando para expiar sus culpas.”

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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