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O fã clube e o “apequenamento” do futebol brasileiro

No campo, a Copa do Mundo terminou para a Seleção Brasileira após a derrota para a Noruega. Isso é sabido por todos. Fora dele, porém, principalmente nas redes sociais, o Mundial parece não ter terminado para o Brasil. E, na minha opinião, segue de uma forma patética.

Nesta semana pós-derrota para a Noruega, viralizaram em plataformas como o Instagram postagens enaltecendo a atitude de Neymar de discutir com o goleiro Nyland, após converter o pênalti, já nos acréscimos do segundo tempo. Assistindo ao lance no momento do jogo, estranhei a atitude do jogador brasileiro, uma vez que, em situações como essa, com o time precisando de mais um gol para empatar a partida, o normal é vermos jogadores buscando a bola no fundo do gol, na tentativa de apressar o reinício da partida, para tentsr empatar. 

Mas Neymar, muito possivelmente descrente em relação a uma reação com a bola rolando, preferiu ser autêntico: buscou um suposto heroísmo com uma atitude que em nada contribuiu para a imagem da Seleção e dos brasileiros em geral: foi discutir com o goleiro adversário, em retribuição às provocações feitas por Nyland antes da cobrança.

Ora, meus caros e caras: quem acompanha futebol sabe que a maioria dos goleiros faz provocações aos batedores de pênalti na tentativa de os desestabilizarem. Neymar muito passou por isso e sabe bem disso. E não lembro de, em outra oportunidade, tê-lo visto responder às provocações.

A verdade é que Neymar, além de gênio da bola, é um gênio do marketing pessoal. Claro que é minha opinião, mas o vejo como marqueteiro, por exemplo, quando cai de forma desproporcional (às vezes, escandalosa) ao sofrer algumas faltas, e por sempre buscar uma maneira de atrair as atenções para si. E desta vez não foi diferente: pressentindo que suas participações em Copas do Mundo estavam acabando (foram quatro e sem triunfos), encontrou uma maneira de se despedir de forma heróica perante os olhos de seu enorme fã clube.

Nas redes sociais, os fãs de Neymar repetem frases do tipo: “caiu, mas em pé”; “colocou o goleiro no lugar merecido”; “não deixou barato”… e por aí afora. Fico pensando o que ele deve ter dito ao goleiro. Elenco aqui algumas opções: 1) “Nós levamos dois gols de vocês, mas eu fiz um em ti”; “tu pode estar se classificando, mas levou gol meu”; “ter feito gol em ti vale mais do que a tua classificação”… Sei lá. Mas o certo é que a imagem mostra um Neymar aparentemente irritado e o goleiro sorrindo (ou rindo da cara dele).

Mesmo assim, o fã clube de Neymar considera a sua atitude como uma espécie de vitória. Mas duvido que em qualquer outra parte do mundo alguém pense assim. Aliás, boa parte dos brasileiros não pensa da mesma forma. Eu sou do tempo em que “cair em pé” significava mostrar bom futebol e reconhecer os méritos do adversário em caso de derrota. Mas os valores no país parecem ter mudado muito.

Uma parte significativa do fã clube de Neymar reage nas redes sociais da mesma forma como muitas pessoas têm reagido nas discussões políticas: com ofensas a quem pensa diferente.  O fanatismo político parece ter contagiado o futebol, infelizmente. Como amante do esporte bretão, espero que a Seleção Brasileira volte a ter predominantemente uma torcida com espírito alegre que abafe o fã clube raivoso.

Autor

Renato Dornelles

Jornalista, escritor, roteirista, produtor, sócio-diretor da editora/produtora Falange Produções, é formado em Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) (1986), com especialização em Cinema e Linguagem Audiovisual pela Universidade Estácio de Sá (2021). No Jornalismo, durante 33 anos atuou como repórter, editor e colunista, tendo recebido cerca de 40 prêmios. No Audiovisual, nos últimos 10 anos atuou em funções de codireção, roteiro e produção. Codirigiu e roteirizou os premiados documentários em longa-metragem ‘Central – O Poder das Facções no Maior Presídio do Brasil’ e ‘Olha Pra Elas’, e as séries de TV documentais ‘Retratos do Cárcere’ e ‘Violadas e Segregadas’. Na Literatura, é autor dos livros ‘Falange Gaúcha’, ‘A Cor da Esperança’ e, em parceria com Tatiana Sager, ‘Paz nas Prisões, Guerra nas Ruas’. E-mail para contato: [email protected]
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