Pior do que está, não fica. Essa opinião básica sobre a venda do Correio do Povo para a Record é quase um uníssono. Há jornalista que lembra com amargura e rancor do tempo em que passou a ser proibido o sujeito sair da redação levando um exemplar do dia seguinte debaixo do braço depois de passar um dia enlouquecido de trabalho. Pasmem. O raciocínio do patrão era o seguinte: se isso aqui fosse uma indústria de óleo de arroz, cada funcionário sairia carregando uma lata? Claro que o referido patrão não entendia que o dedicado escrevinhador, que passava o dia encafifado em seu setor, poderia contribuir, e muito, levando o jornal para casa. Até para viver uma situação de autocrítica e avaliação fora do local de trabalho, longe da pressão, estaria simulando um ambiente neutro para uma pesquisa informal de como andaria a aceitação do conjunto da obra diária, sua e de seus colegas. Mas o patrão que não percebe a diferença entre uma lata de óleo de arroz e um exemplar de seu jornal diário não merece mesmo qualquer dedicação extra. Sendo assim, pior do que está, certamente não fica.
O encerramento de uma companhia jornalística, em geral, dá lugar a remembranças (Fu Lana andou lendo Carlos Reverbel e gostou do termo). Soube de uma ótima. Uma jornalista, que conhecia o filho do patrão pela convivência diária em um colégio da capital, presenciou uma cena estarrecedora. Durante uma gincana onde uma das tarefas principais era apresentar a primeira edição do jornal tal da cidade, o menino não teve dúvida. Pegou a chave do papai, com autorização, entrou no arquivo do jornal mais tradicional da cidade, e para horror da jornalista, abriu a encadernação mais antiga, rasgou de cima abaixo e levou a página para vencer a tarefa. Que família, dizia ela. E os valores? E a memória? E o respeito? Por essas tão pequenas e por outras certamente muito maiores, o difícil será sentir saudades do pequeno correinho.
Na verdade, é como se o Correio do Povo, afinal, ressuscitasse de um período de congelamento. Outrora rico em profissionais brilhantes, de grande formato e presença fundamental em todas as casas, tornou-se de repente diminuto, com notículas de texto, mais parecidas com notinhas radiofônicas ou rodapés. Desvalorizado ao máximo, era quase dado de presente aos assinantes, considerados apenas uma massa de gente sem cérebro a quem bastava informar o lead, pois “eles não lêem mesmo”.
O jornal já tinha terminado. A venda para a Record é quase uma bênção. Fica a pergunta: os executivos e os poderosos aqui no sul não têm talento e vocação para a área das comunicações ou estão preferindo o dinheiro certo das comodities, lidando comodamente (com o perdão do trocadilho) com lavouras e indústrias, onde até produtos-papéis são mais fáceis de administrar do que as palavras, as letras e os argumentos abstratos?
Há quem diga que o gaúcho precisa de uma mente de vanguarda para levar em frente esse barco onde todos remaremos com prazer. Aleluia!

*As discussões estão sujeitas à moderação. Antes de comentar, leia nossa Política Editorial