Nada conheço de canários, mas tem gente que manja tudo a respeito deles e é capaz de distinguir os que cantam em dó maior dos que trinam em ré menor. O que sei do assunto não vai além de algumas nacionalidades – tem os canários belgas e tem os canários hamburgueses –, o que é de estranhar, porque sempre pensei que todos fossem naturais das Ilhas Canárias, cujo nome vem de “canis” (= cão), porque em priscas eras grandes cães foram encontrados na maior daquelas ilhas, por uma expedição ordenada pelo rei númida Juba II.
Nada a ver com leões, por favor. Também essa questão das nacionalidades dos canários nada a ver com eles, mas com futebol. Eu conto.
Lá na minha terra, Rio Grande, no tempo em que se jogava futebol com uma badana para proteger a testa do tento que fechava a bola, havia um “center-half” (meio-campo) do F.C Riograndense, cuja figura antecipou Garrincha em algumas décadas. Era genial no campo e amava obsessivamente os canários.
Tinha o apelido de Pelado, pelo cabelo raspado e também pela crônica falta de dinheiro no bolso. Nos tempos ditos do amadorismo, os atletas trabalhavam para ganhar o sustento. Tinham o esporte como “bico”. Homem de poucas letras, os empregos que arranjava eram parcos de salários. Em certa época, foi lavador de garrafas em uma pequena fábrica de refrigerantes.
Bastava-lhe, porém. Tivesse as folhas de alface, o painço e ovos para cozinhar – tudo barato, então –, era feliz. As gaiolas, ele mesmo as fabricava. Um dia, porém, vejam só a coincidência, na semana de um Rio-Rio decisivo, em que o Rio Grande precisava vencer, ao Riograndense bastava o empate para ser campeão, um prócer adversário, o Fabrício, o procurou para saber dele sobre um “canário hamburguês” que importara da Alemanha, diretamente de Hamburgo. O bicho tinha até certidão de nascimento e árvore genealógica da Sociedade Hambuguesa dos Canários.
Não bastava ao Fabrício, entretanto. Ele queria aval de um “especialista” para ver se não fora tapeado. Quem melhor que o Pelado?
Foi paixão à primeira vista. Ao ver o canário, Pelado vidrou os olhos na gaiola e começou a suplicar: “Seu Fabrício, me dá esse canário. Esse canário tem que ser meu!”
Fabrício o olhou compungido: – Olha, Pelado, pensei nisso quando o canário chegou anteontem. Tem que ser do Pelado. Mas aí pensei melhor, foi por isso que não te procurei. Não, não vou dar para ele, para que não pensem que quero comprá-lo. Deus me livre. Tem esse jogo de campeonato, o que vão pensar, não é mesmo?
– O senhor e todo mundo sabem que não me vendo, seu Fabrício. Ninguém vai dizer nada. Esse canário tem que ser meu!
– Pois é, mas tem outra coisa. Esta noite, Nossa Senhora me apareceu em sonhos e me disse: “Fabrício, meu filho, só por um jogo de futebol você não pode fazer isso com o Pelado. Ele é um bom rapaz, merece o canário.Vai ficar infeliz se você não der o canário para ele. Você já pensou como vai se sentir, se o Rio Grande não for campeão no domingo? Pois é assim que o Pelado vai se sentir”.
– Nossa Senhora lhe disse isso!? De verdade, seu Fabrício??!!
– Disse. Até fiz uma promessa a Nossa Senhora: se o Rio Grande for campeão, vou ficar tão feliz que dou o canário ao Pelado.
Pelado continuou contemplando o canário por mais algum tempo e rompeu o silêncio:
– Pode deixar, seu Fabrício. O Rio Grande vai ser campeão.
No domingo, quem assistiu à partida ficou atônito. O Riograndense fechado na defesa, a toda a hora Pelado botava a mão na bola e o juiz virava a cara para o outro lado e fingia que não via. O tempo foi se escoando, partida quase no fim, desesperado, Pelado “colou” no juiz e segurando ostensivamente a bola com as duas mãos, reclamou:
– Vai dizer que agora não viu!!!
Foi expulso por desacato, a partida terminou zero a zero, e o Riograndense foi comemorar o campeonato com “lauto” jantar na Gruta Bahiana. Na manhã seguinte, quando saiu para trabalhar, Fabrício encontrou Pelado na porta de casa. Estava ali desde cedo, desconsolado.
Fabrício foi duro:
– Não quero conversa! O Rio Grande não foi campeão! Não tem canário.
Pelado defendeu-se:
– Seu Fabrício, não fui eu, o senhor viu, todo mundo viu. O juiz era um gato, ele nos roubou escandalosamente, não há polícia nesta terra!
Diante do argumento irretorquível, Fabrício caiu na gargalhada e deu o canário ao Pelado. Na verdade, tinha custado alguns vinténs no Mercado Público.

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