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O gesto do Felipão

      O Brasil venceu a primeira partida da Copa do Mundo e, enquanto o país inteiro celebrava o feito, difícil e fundamental feito, não o …

      O Brasil venceu a primeira partida da Copa do Mundo e, enquanto o país inteiro celebrava o feito, difícil e fundamental feito, não o de ganhar da Turquia, mas o de estrear em uma Copa com vitória, a mídia tratava de destacar muito mais o erro do árbitro no falso pênalti sobre Luisão. Aí, o Brasil triunfou na segunda rodada, e com goleada, e enquanto o país inteiro celebrava o feito, difícil e fundamental feito, não o de fazer 4 a 0 na China, mas o de ganhar também a segunda partida na Copa e encaminhar a classificação antecipada, a mídia tratava de destacar a queda de rendimento no final do jogo e o fato de que só quatro, contra um adversário daqueles, nada significava. Não toda a mídia, sempre tem a turma do bom senso, mas boa parte dela.

      De fato, derrotar a Turquia só por 2 a 1, e com um gol “roubado”, não converte a seleção em um grupo de bravos. Tampouco é mérito digno de ser contado aos netos fazer 4 a 0 na China. É igualmente verdade que caímos de rendimento, mas alguém aí daria tudo de si em jogo já decidido, se arriscando a uma contusão que poderia encerrar sua participação na Copa? Ah, mas ele tirou os melhores. E por que não dar ritmo aos demais e poupar os titulares? Para provar o que, uma vez que nada se pode mesmo provar contra a China? Ter entrado em campo significa não ser mais um estreante em Copa, e a implicação psicológica disso é sem dúvida positiva e por demais complexa para ser avaliada por comentaristas apressados.

      Em ocasiões assim, nunca sei se o brasileiro, tão humilde em outras ocasiões, nas quais muitas vezes nem precisaria ser, se converte num ser decididamente arrogante quando se trata de futebol, ou se a mídia faz questão de superlativar determinados detalhes a fim de esquentar a cobertura que, do contrário, estaria calma e, com isso, imaginam alguns, monótona. O fato é que só tolos empedernidos e pessimistas vocacionais deixariam de reconhecer que o Brasil garantiu a vaga em duas rodadas enquanto a Alemanha, a Itália e a Rússia curtiam uma enorme angústia, a Argentina, sempre tão nariz empinado, vivia um drama ainda maior, e a França, a favorita, a poderosa e engasgada em nossa garganta, partia para o desespero.

      A seleção brasileira tem muitos problemas, não há dúvida. Não necessariamente nesta ordem, a ausência do Emerson, líder e melhor marcador, os vacilos da uma defesa certamente fraca, mas não temos mesmo grandes zagueiros, o excesso de passes errados no meio, o excesso de firulas na hora da conclusão, a falta de regularidade e ritmo, enfim, não exibimos ainda um time confiável, talvez nunca tenhamos, podemos até perder feio logo em seguida, mas a seleção fez a lição de casa, como gostam de dizer os executivos, ao menos o fez nas duas primeiras rodadas. E o que importa é o resultado final, sabemos disso, importa é que o Brasil se classificou com antecipação, sem sustos, sem taquicardias. Inútil invocar a fragilidade dos adversários, pois algumas potências do futebol, cujos times parecem agradar muito mais à nossa mídia, enfrentaram adversários frágeis e se deram mal.

      A pegação de pé se estende ao chamado extra-campo. Outro dia vi o bate-boca provocado por uma foto na qual, supostamente, Felipão estaria mandando o fotógrafo… bem, vocês sabem. A junção do indicador e do polegar, com os demais dedos estendidos para cima, é muito mais um sinal de Ok do que de mandar… vocês sabem. Mas, como veio de Felipão, que pagará sempre o preço de não fazer média com ninguém, muito menos, com o perdão do trocadilho, fazer média com a mídia, serviu para que um fotógrafo tentasse roubar a cena e obter alguma glória.

      Aliás, recomendo a leitura do artigo do Roberto Pompeu de Toledo na Veja desta semana. Em “Felipão, um brasileiro”, o articulista enquadra o técnico da seleção no perfil do brasileiro cordial (cordial no sentido de “do coração”, não de gentil) definido por Sérgio Buarque de Holanda no clássico “Raízes do Brasil. Curto e preciso.

Dedicado a Pedro Macedo

([email protected])

Autor

Eliziario Goulart Rocha

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