“Eu prefiro um Bordeaux a um Bourgogne,
assim como prefiro o
Inspetor Maigret a Arséne Lupin.”
(Patricia Highsmith)
Os dois são comissários de polícia e já têm lugar cativo na galeria dos grandes heróis da literatura policial. Um é parisiense, tranquilo, fumador de cachimbo e apreciador de cerveja alsaciana. O outro é siciliano, glutão, fala palavões em dialeto enquanto persegue malandros e mafiosos. Suas aventuras acordam nossas emoções juvenis dos tempos do “mocinho versus bandido”.
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O comissário Jules Maigret apareceu pela primeira vez em 1931, em “Pietr-le-Letton”. Sua última aventura foi em “Maigret et Monsieur Charles”, de 1972. Ao longo de 74 livros, Georges Simenon forjou este personagem mítico, de personalidade tão densa que se transformou em alter-ego do escritor. Salvo Montalbano é também um comissário de polícia. Apareceu pela primeira vez em 1994, pelas mãos do escritor e diretor de teatro Andrea Camilleri, na novela “La forma dell’ acqua”. De lá para cá, seguiram-se 22 novelas, sucesso permanente nas livrarias italianas e européias. Uma trajetória menor, mas não menos impressionante do que a do belga Simenon.
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Para os aficionados de Maigret, o comissário siciliano é uma opção provocativa e divertida. As duas figuras são distintas na essência e estilo, mas não escapará ao leitor mais atento que a inspiração de Andrea Camilleri para criar Salvo Montalbano não foi outra senão Jules Maigret. O escritor siciliano até se declara um ardoroso admirador de Georges Simenon e chega ao requinte de, aqui e ali, incluir um ou dois de seus livros nas novelas. Não por acaso, os dois personagens possuem muito em comum – ambos adoram comer e perseguem criminosos com a tenacidade de um cão de caça. Mas, se são semelhantes em atitudes, os perfis psicológicos são tão diferentes como o de um gaulês provinciano diante de um mediterrâneo insular.
Jules Maigret raramente expressa sentimentos, embora seu olhar crítico não perdoa tolices de seus superiores na Polícia Judiciária. Nem se deixa enganar com as artimanhas dos vilões que persegue, aguardando com paciência, a hora de desmascará-los.
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Já Salvo Montalbano é um homem solar e sanguíneo, que explode a uma provocação maior. O personagem de Simenon é casado com a pacata Madame Maigret e seu afeto é discreto e sem arroubos. O siciliano mora sozinho e nutre sonhos eróticos com a bela Livia Burlando, uma arquiteta de Gênova. Em Paris, Jules e Louise Maigret raramente discutem e nunca brigam, apesar das rabugices do comissário. Salvo e Livia vivem às turras e trocam palavrões ao telefone. Maigret apenas usa o telefone para avisar que vai se atrasar para o jantar. Os casos que chega à mesa de Maigret são homicídios misteriosos e estranhos roubos. Quase sempre envolvendo personagens complexos e enigmáticos. As idas e vindas do comissário o levam a todos os quartiers de Paris – das imponentes mansões da Avenue Montaigne aos mafuás sórdidos da Place Pigalle. É quando emerge o talento de Simenon, descrevendo ambientes, como o do bistrot onde faz uma parada para uma cerveja. Então, podemos sentir o sarro de cigarro ou o perfume de anis do Pernod que um tipo suspeito bebe no balcão. Quando viaja a uma cidade do litoral atrás de uma pista, ouvimos o som das ondas nas pedras do cais e nos deliciamos enquanto Maigret almoça um linguado fresco com molho de ervas, acompanhado de um blanc de blanc.
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O comissário Salvo Montalbano mora e trabalha na fictícia Vigàta – aliás, Porto Empedocle, cidade onde Camilleri nasceu há quase 90 anos. Mas a Sicília moderna está muito distante da Paris dos anos 40 e 50. Quando Montalbano enfrenta bandidos violentos, não pratica psicologia criminal. Agride rufiões, derruba portas e até se envolve com gente da Máfia. Já as aventuras de Maigret são prazeres dignos de um gourmet. Nos tornamos íntimos dos cantos e recantos de Paris, por onde ele circula. E nossa memória gustativa guarda um tanto dos cozidos de Madame Maigret e dos almoços no Fouquet”s e dos sanduíches com cerveja da Brasserie Dauphine.
Do outro lado, Andrea Camilleri não se esmera em pintar a rústica paisagem da Sicilia. Mas seus tipos humanos são marcantes e fortes, assim como a descrição das iguarias devoradas pelo gourmant Montalbano. A culinária da Sicília conserva as marcas de culturas de gregos, romanos, normandos, bizantinos, árabes e africanos. Quando chega em casa à noite, Salvo Montalbano saboreia pratos da invisível Adelina, sua faxineira e cozinheira, seja um Spaghetti alle Vongole ou uma Pancetta dei Nebrodi al Limone, temperada com sal marinho.
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O leitor, se apreciador da boa mesa, ficará muito bem servido nos intervalos das aventuras desses comissários, seja em um velho “bistrot” às margens do Sena ou em uma “trattoria” siciliana, sob os ventos do Mediterrâneo.
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“Montalbano sentou na escada, acendeu um cigarro,
e passou a disputar um concurso
de imobilidade com um lagarto.”
(Andrea Camilleri, “O Ladrão de Lanches”)

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