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O harém do Gorila

O escritor e jornalista Geraldo Hasse, a quem todos devemos o resgate da vida e da obra de Darcy Azambuja, me alegra com mensagem, …

O escritor e jornalista Geraldo Hasse, a quem todos devemos o resgate da vida e da obra de Darcy Azambuja, me alegra com mensagem, abordando o mito urbano que fez de Pelotas uma das capitais brasileiras do homossexualismo. Observa com precisão que “a birra dos vizinhos com os pelotenses vem do tempo da aristocracia do charque. As famílias ricas mandavam os filhos estudar fora, na Europa. Eles voltavam com palavras, manias e roupas estranhas, caindo na boca do povo. Algo semelhante teria acontecido com a aristocracia cafeeira de Campinas”.

Não sei quando Campinas foi condecorada com a prebenda, mas uma observação de Hasse sobre o Carnaval Pelotense me chamou a atenção: “No Carnaval, uma festa popular de verdade na cidade, era impressionante a quantidade de homens vestidos de mulher nas ruas. Nas cidades com bom carnaval de rua isso não é novidade, mas Pelotas extrapolava porque certamente atraía o bicharedo de praças mais fechadas.”

Tenho a impressão – os sociólogos hão de esclarecer isso melhor – que um dos fenômenos típicos na consolidação dos mitos é jogar para trás uma visão presente. Por um estranho mimetismo, assume cheiro e coisa de passado, como se elas sempre tivessem sido assim.

O carnaval travestido – homens fantasiados de mulheres, mas também, em igual proporção, mulheres fantasiadas de homens, o que quase nunca se assinala – é tradição antiga da Zona Sul do Estado. Herdada com toda a certeza do Entrudo, o carnaval selvagem do Brasil Colônia, tem suas raízes nas Saturnálias Romanas. Em outras regiões, como a de Cruz Alta, por exemplo, aqui no Rio Grande do Sul, o Entrudo deixou como resíduo a famosa batalha dágua das segundas-feiras.

Desaparecido com a abolição da escravatura, o Entrudo invertia a pirâmide social durante alguns dias, concedendo aos escravos um suposto  direito – não passava de impunidade – de devolver a humilhação a que eram submetidos sempre pelos senhores e pela população branca em geral. Faziam o que lhes viesse à cabeça, desde dizer desaforos a praticar agressões físicas como jogar líquidos fedorentos, lama e por aí afora.

O travestismo carnavalesco, homens fantasiados de mulheres e vice-versa, elas sempre mascaradas para esconder a identidade e não serem confundidas com “aquelas outras”, tinha o caráter de desabafo contra a hipocrisia de uma sociedade que exaltava no palco virtudes absolutamente ausentes dos bastidores. O homossexualismo era parte do desabafo mas não era todo ele. Mais: boa parte dos travestidos desejava apenas fazer humor.

Nesse contexto, a primazia de carnaval gay surpreendentemente coube a Rio Grande, a terra dos machos. Havia um bloco, o Quebra-Osso, que criava quadros cômicos para o seu desfile nas ruas da cidade.

O personagem principal era um imenso gorila, de papelão montado em armação de madeira, que sambava piscando olhos de lâmpadas vermelhas. Um barrigudo de cara magra fazia o abre-alas. Na comissão de frente, um gigante de dois metros altura, com uma túnica romana que antecipou a minissaia em muitas décadas, mostrava pernas cabeludíssimas e tangia uma lira de cordões esticados em um assento de vaso sanitário.

Logo depois, vinha o harém do Tarzan que domava o Gorila: uma exuberante coleção de “Janes”, a saracotear com toda a frescura do mundo. A população, acotovelada na Rua Marechal Floriano, divertia-se e aplaudia com entusiasmo o Quebra-Osso.

Que eu saiba, só um único sujeito reclamou do sargento Degani, que era o presidente do bloco: “Eu queria desfilar no teu bloco, mas tem veado demais ali”.

Degani, homem de poucas palavras, respondeu:

“Eles são profissionais. Desfila tu nos amadores.”

Tudo isso foi muito tempo antes de Pelotas criar fama e deitar na cama. No bom sentido, é claro…

Autor

Jayme copstein

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