Na primeira vez em que o vi é bem possível que tivesse um preconceito em relação a ele. Preconceito no sentido literal, de conceito pré-estabelecido. Na origem, a palavra não é necessariamente negativa. Conceito prévio para o bem e para o mal. Sua fama o precedia. Talento indiscutível, provido de invulgar criatividade e invejável cultura, mas igualmente egocêntrico à enésima potência e notório falastrão. E era tudo isso mesmo. Na primeira vez em que me vi frente a frente com Eduardo Bueno, o famoso Peninha, não soube bem o que pensar. A função “processando” ficou meio lenta. Acho que é normal que isto aconteça no primeiro encontro com uma pessoa assim. Circunstâncias da época obrigavam-nos a uma convivência pacífica, não mais do que isso. Dez anos depois, o Pena tornou-se não apenas meu compadre e amigo de infância, como também alguém a quem já tive o privilégio de coadjuvar no ofício literário e elemento importante na composição de meu Norte.
O flashback foi inevitável enquanto assistia a uma palestra para 80 convidados, coisa pouca para ele, ambiente acanhado, mas acolhedor, o auditório da Livraria Cultura do Bourbon Shopping, com a mesmíssima cara da Cultura que eu freqüentava com razoável freqüência no Shopping Villalobos, no meu recanto tão especial de São Paulo, mas aí é outro flashback. Enfim, estava lá o Pena a falar com desenvoltura e bom humor quando pensei mais uma vez sobre como o jornalismo tem dificuldade em conviver com os poucos iluminados que circulam eventualmente pelas redações. Um dia ele ficou sem redações, e então teve de se tornar definitivamente escritor. Quase um milhão de exemplares vendidos depois, que bom que foi assim, mas, com o perdão do inevitável trocadilho, que pena que assim o foi.
A cada vez que se pronuncia, em relação a qualquer fora-de-série, algo do tipo “ele é bom demais para ficar preso a uma redação”, no fundo, e nem tão no fundo assim, se está admitindo que o jornalismo é mesmo o reino da superficialidade e do banal. Guardadas as proporções de estilo ou celebridade, o mesmo vale para o Juremir Machado da Silva. Se por vezes ele propõe coisas que aquele tratado tão estabelecido das redações não se permite aceitar, ao menos ele faz aquilo a que a maioria abdica: ele propõe. Comete a suprema heresia de sugerir que se pense um pouco sobre o que se está entregando ao leitor. Há outras complexidades envolvendo o tema e o personagem, sei disso. Mesmo assim, o público jamais saiu perdendo quando se abriu espaço para um virtuose como o Pena ou um polemista como o Juremir. Sintomaticamente, e sempre guardando as diferenças, ambos já desistiram das redações.
* Eliziário Goulart Rocha é jornalista e escritor, autor dos romances Silêncio no Bordel de Tia Chininha e Dona Deusa e seus arredores escandalosos e da ficção juvenil Elyakan e a Desordem dos Sete Mundos.

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