“Cativado por Pamplona, cativado para sempre”. (“Iruñean liluratuta, liluratu betirako”).
Provérbio basco
Existem muitas cidades ao redor do mundo que podem reclamar afinidade emocional com Ernest Hemingway. Suas pegadas estão em três continentes e em dezenas de cidades que o amaram e que por ele foram amadas. Algumas inspiraram novelas que se tornaram clássicos da literatura do século 20. “A Moveable Feast” foi destinada a ser a celebração máxima de Paris. “The Garden Of Eden” revela a Riviera dos ricos e excêntricos, a Riviera inacessível ao visitante ocasional. Havana é o porto seguro de “The Old Man And The Sea”, enquanto os Keys, na Florida, são o território de aventuras em “Have And Have Not”. E as savanas de Quênia nunca foram tão atraentes como em “True At First Light”.
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Mas é Pamplona que aparece como sua mais entranhada paixão e que foi correspondida em toda a plenitude. Por séculos, a capital do antigo Reino de Navarra era uma cidade reclusa, sobrevivente dos tempos da dominação moura. O que fascinou o escritor e sua esposa, Hadley Richardson, foram as corridas de touros nos sanfermines, a antiga celebração que reverencia San Fermin, o bispo mártir do século XII, que se tornou patrono da cidade.
Nos dias atuais, é mais fácil seguir os rastros de Ernest Hemingway em Pamplona do que os do santo padroeiro. Vamos encontrá-lo aqui e acolá, a começar por seu lugar favorito – a arena de touros. Lá está sua grande cabeça esculpida em bronze, usando a malha branca de marinheiro, sua roupa ícone. Que olha para a cidade como se fosse seu dono. De certa maneira, ele o é.
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Hemingway visitou Pamplona em nove ocasiões, entre 1923 e 1927. Queria saber tudo sobre as corridas, com a ideia de escrever sobre touros e toureiros. Após as tardes de sangre y arena, ele e os amigos da Rive Gauche procuravam os bares da cidade. Quase sempre, o Café Iruña, que não mudou muito em 90 anos – um verdadeiro bistrô do século 19, com seus grandes espelhos polidos, pilares com detalhes mouriscos e o piso ladrilhado, riscado pelo arrastar de milhares de mesas e cadeiras.
As intensas vivências de Hemingway em Pamplona desabrocharam em 1926, em seu primeiro grande romance, “The Sun Also Rises”. Um livro sobre as andanças de aventureiros e boêmios nos verões de Navarra. Que são nitidamente inspirados em personagens da “geração perdida” – Jack Barnes (na versão para o cinema, Tyrone Power) é um retrato auto-biográfico. A promíscua Lady Brett Ashley (Ava Gardner, no cinema) faz Lady Duff Twysden, um dos amores parisienses de Hemingway. E Robert Cohn (no cinema, Mel Ferrer) é Harold Loeb, sparring do escritor nos ringues de boxe.
Se 1925 foi para Hemingway o início de sua relação amorosa com Pamplona, o ano de 1959 marcou o crepúsculo desta paixão. Sua última visita foi desafortunada – adoentado e em depressão, ele estava em busca de uma cidade que não mais existia. A fascinante Espanha dos anos 20 havia desaparecido, substituída por um país subjugado pelo fascismo do General Francisco Franco. Ao deixar Pamplona, Hemingway carregava o peso de mais uma desilusão. O regime franquista proibira a edição e venda de “The Sun Also Rises” e “For whom the Bell tolls”, seus mais belos romances sobre a Espanha.
Mais tarde, em “The Dangerous Summer”, publicado apenas em 1985, ele lamentava: “Pamplona estava irreconhecível, invadida por uma multidão de 40 mil turistas. Quatro décadas se passaram quando estive lá pela primeira vez – então, éramos eu e mais 20 turistas”.
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Dois anos depois, em um sábado, 2 de julho de 1961, ele vestiu um roupão vermelho, foi até a varanda da casa em Ketchum, no Idaho e colocou sua arma de caça favorita na boca.
Enquanto isso, em Pamplona, começavam as fiestas de San Fermín.


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