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O inverno nosso de Porto Alegre

Não sei se posso ser classificada como uma pessoa sádica, cruel ou que gosta de sofrer. Mas simplesmente adoro os dias e noites do …

Não sei se posso ser classificada como uma pessoa sádica, cruel ou que gosta de sofrer. Mas simplesmente adoro os dias e noites do inferno de Porto Alegre, que segundo consta, começa oficialmente nesta quarta-feira (20). Por conta desta minha paixão pelo inverno da capital gaúcha, o único que conheço intimamente, já separei as mantas de lã, que em pleno século XXI ganharam nomes pomposos como echarpes ou pashminas. Abasteci o armário com vinhos tintos e brancos, daqueles em promoções. Separei alguns livros que entopem a meu estande e precisam ser lidos. Tudo preparado para este período aconchegante de baixas e gélidas temperaturas.

Pois, se depender desta que vos escreve e ama demais um frio de renguear cusco (tão frio, mas tão frio mesmo que faz até o cachorro se encolher, o que comprova o meu neto canino shih tzu Dalai que perambula pela casa tremendo em decorrência das baixas temperaturas), pode se “aprochegar” inverno. Nada me impedirá de passar as tardes de sábado e domingo vendo filmes antigos na televisão, protegida por cobertores e intercalando as sessões com boas sonecas. Nada me afastará de pegar uns minutinhos de sol nos parques da capital gaúcha nos finais de semana.

E, como uma amante confessa do inverno de Porto Alegre, permanecerei horas a fio admirando a trajetória dos pingos de chuva escorrendo delicadamente pelas janelas do apartamento e embaçando os vidros do meu local de serviço. Como uma defensora da manutenção das relações familiares (ai, que medo do aumento de peso), incentivarei irmão e cunhada a prepararem bolos apetitosos e almoços saborosos para os meus retiros esporádicos em Butiá. Mais ainda, como protetora dos “frascos e comprimidos”, até me animarei a tricotar uns panos de lã para agasalhar o Dalai.

Claro que não sou insensível aos problemas enfrentados pela população de rua. E nem tenho medo de ser taxada de uma colunista chata ou preocupada em excesso com os sem-teto, os sem-salário, os sem-agasalho, os sem-perspectivas. Dane-se quem me criticar. Aos que me criticarem, apenas digo: danem-se todos os sem alma e sem coração. Mas entendo que a população que dorme nas esquinas da capital também sofre com a falta de opções quando o Porto Alegre transforma-se em Forno Alegre, A preocupação com os nossos vizinhos de rua sem condições deve independer do clima.

O fato é que tenho saído às ruas entrouxada de tanta roupa (acho que ganho uns três quilos com o acúmulo de agasalho). O certo é que chego em casa sonhando com um banho quente, um pijama bem confortável e umas pantufas. E quando finalmente penso em deitar, lá pelas 3 horas da manhã, feito doida alucinada, grito umas quatro vezes antes de fazer minhas orações: “ai, que baita frio”.

Autor

Márcia Martins

Márcia Fernanda Peçanha Martins é jornalista, formada pela Escola de Comunicação, Artes e Design (Famecos) da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), militante de movimentos sociais e feminista. Trabalhou no Jornal do Comércio, onde iniciou sua carreira profissional, e teve passagens por Zero Hora, Correio do Povo, na reportagem das editorias de Economia e Geral, e em assessorias de Comunicação Social empresariais e governamentais. Escritora, com poesias publicadas em diversas antologias, ex-diretora do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (Sindjors) e presidenta do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Porto Alegre (COMDIM/POA) na gestão 2019/2021. E-mail para contato: [email protected]
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