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O jovem que amava Renoir

Era uma vez um rico e infeliz jovem chamado Bruno. Ele preparava as malas para passar um ano em Paris. Mas estava desgostoso com …

Era uma vez um rico e infeliz jovem chamado Bruno. Ele preparava as malas para passar um ano em Paris. Mas estava desgostoso com a perspectiva de viver longe da namorada e dos amigos. O sonho de seu pai era vê-lo chef de cuisine e o matriculara em um famoso curso de culinária. No entanto, Bruno não mostrava nenhuma intimidade com panelas e caçarolas. O que ele queria mesmo é pintar como Renoir.

***

Tudo começou quando um velho amigo me convidou para almoçar. Já no primeiro dry martini, vi que ele estava incomodado com alguma coisa, demorou para chegar no assunto. Foi só na hora do café que conseguiu desabafar. Começou contando o que eu já sabia – que há 30 anos tinha um rendoso negócio de importação de bebidas e especiarias, mas que estava chegando a hora do filho ocupar seu lugar. Sem poupar despesas, matriculou-o no Le Condon Bleu e negociara com seus amigos da Maison Fauchon um estágio para o filho na loja de Paris. E parecia otimista:

“Com certeza, a convivência com a gastronomia francesa vai prepará-lo para vender meus vinhos, licores e confitures”.

 

***

Ensaiei alguns conselhos, mas o homem não queria ouvir nada contrário aos seus planos. Mas então, o que ele esperava de mim? Queria simplesmente que eu usasse meus poderes de persuasão (eu não sabia que os tinha) para convencer o filho a fazer o tal curso e aproveitar a vida em Paris.

Devia ser mais fácil convencer o filho do que o pai.

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Levei Bruno para jantar no melhor restaurante francês da cidade, mas ele estava absorto e nem saboreou o excelente tournedos avec sauce bernaise. Se desembarcasse em Paris daquele jeito, seria um desastre: não duraria um mês no Condon Bleu e não venderia uma confiture na loja da Fauchon.

Comecei confessando que eu próprio era um apaixonado por pintura, conhecia o Louvre como a palma da mão e que seria capaz de andar pelo d’Orsay de olhos fechados. Isto despertou o moço, que começou a disparar perguntas sobre perguntas. Então contei-lhe das maravilhas que o esperavam nos museus de Paris, desde seu favorito Renoir a Van Gogh, Monet e Picasso. Falei ainda das oportunidades que a França oferece a um jovem estudante de arte.

O quase-futuro chef se entusiasmaca mais e mais, revelando que sempre quis ser um artista, mas que o pai tinha outros planos para o seu futuro. Ele até aceitava fazer o Condon Bleu, mas queria cursar uma academia  de arte. Respirei fundo e retomei o discurso, lembrando que tanto Renoir como Monet não nasceram pintores e que precisaram percorrer um longo caminho, antes de serem reconhecidos como grandes artistas.

Quando anunciei que iria montar um detalhado roteiro dos museus que expõem Renoir e os grandes impressionistas, o jovem havia acordado de vez. Era a hora de negociar a primeira parte do nosso acordo.

E naquela noite, fui tomar um calvados com o pai dele.

***

Duas semanas depois, estávamos no aeroporto para nos despedir de Bruno. Que não cabia em si, precisando enxugar os olhos, quando o pai lhe entregou o grande envelope. Eram os documentos de matrícula no curso de desenho e pintura da École des Beaux-Arts, a tradicional academia onde estudaram Renoir, Degas e Delacroix. E que fica localizada convenientemente em frente ao Louvre.

Entreguei-lhe um pequeno presente – o livro “Renoir, Mon Pére”, a biografia de Pierre-Auguste Renoir escrita pelo filho, o cineasta Jean Renoir. Sugeri ao Bruno ler com atenção o final, com o agradecimento do autor ao pai, por tê-lo apoiado nos estudos de cinema, desistindo de fazer dele um pintor famoso.

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Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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