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O mago da penumbra

  “Nenhuma outra forma de arte penetra tão profundamente na consciência das pessoas como um filme. Ele vai direto às emoções, entrando na penumbra …

 

“Nenhuma outra forma de arte penetra tão profundamente

na consciência das pessoas como um filme.

Ele vai direto às emoções,

entrando na penumbra da nossa alma”.

Ingmar Bergman.

 

Em maio de 1960, a diretora da Cinemateca Francesa, Lotte Eisner recebe uma carta do diretor sueco Ingmar Bergman. Ao mesmo tempo, carta semelhante chega à Melrose Avenue, 9038, sede da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, em Hollywood, Califórnia. São duas cartas de indignação, recebidas com surpresa e perplexidade. Na carta à Paris, Ingmar Bergman protesta contra a exibição de seus filmes “A Fonte da Donzela” e “Juventude, Divino Tesouro” no Festival de Cinema de Cannes. Na carta à Hollywood, o diretor exige que seu filme “Morangos Silvestres” seja retirado da lista de indicados ao Melhor Filme Estrangeiro.

 

***

 

Mesmo com a intensa repercussão que as cartas provocam no ambiente de cinema da época, seus termos não foram publicados. Sua íntegra somente se tornaria conhecida 40 anos mais tarde, quando da morte de Ingmar Bergman, em julho de 2007. É válido imaginar que os candentes termos do cineasta para qualificar dois famosos festivais de cinema tenham sido considerados politicamente incorretos pela mídia dos anos 60.

Na carta à Cinemateca Francesa, Bergman dizia com todas as letras que detestava o Festival de Cannes, que era para ele “lugar de exibição de carne e de humiliação mental”. Escreve que se sentia penalizado ao ver dois de seus mais queridos filmes em um evento onde o cinema estava distante de ser considerado arte. E a carta à Academia de Hollywood      não era menos condescendente: nela Bergman afirma considerar uma humilhação a presença de seu “Morangos Silvestres” entre os filmes indicados para o Oscar. E sugere que o juri da Academia ignore seu nome no futuro.

No entanto, as extremadas restrições do cineasta sueco aos mais caros festivais da indústria cinematográfica não foram capazes para impedir o desfile de premiações em mostras ao redor do mundo. Até mesmo o Festival de Cannes lhe faz homenagem, com seis indicações à Palma de Ouro e sete premiações, como Melhor Diretor em 1958 e com o Prêmio Especial do Juri no ano anterior para “O Sétimo Selo”, um de seus mais enigmáticos trabalhos. No entanto, seu filme mais premiado foi “Fanny e Alexandre”, de 1982, que lhe rendeu dezenas de lauréis, honrarias e prêmios em New York, Los Angeles, Veneza, Roma, Paris, Toquio, Londres e Berlim.

 

Já na mal-querida Hollywood, Ingmar Bergman nunca ganharia o Oscar, mesmo tendo sido indicado seis vezes como melhor diretor, melhor filme   e melhor roteiro original. Finalmente, em 1971, ganha o prestigioso Irving Thalberg, concedido ao conjunto de obra. Ele está ausente da cerimônia e quem recebe o prêmio foi sua atriz predileta, ex-esposa, e grande musa, Liv Ullmann. Que, ao fazer esta declaração, é aplaudida de pé:

 

” Muitas vezes, nós, atores e atrizes ficamos

cansados de fazer cinema.

Mas é um grande privilégio ficar cansada de trabalhar

com um gênio chamado Ingmar Bergman”.

 

***

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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