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O melhor boteco do mundo

O melhor botequim do mundo é fácil de descrever e difícil de localizar. Ele pode estar em uma esquina qualquer de nossa memória afetiva, …

O melhor botequim do mundo é fácil de descrever e difícil de localizar. Ele pode estar em uma esquina qualquer de nossa memória afetiva, no caminho entre Porto Alegre a Paris, em algum lugar nos vestígios de tempos passados. Ainda lembramos os tons de caramelo de seus lambris enfumaçados, aqueles balcões polidos por milhares de cotovelos. Recordamos o sabor ardido da mostarda nos sanduíches de pão preto, o frescor da cerveja bock, as longas conversas com os melhores amigos de nossas vidas. Mas não me peçam o endereço nem o nome do garçom que sabia de olhos fechados as nossas preferências. O melhor botequim do mundo só existe nas mais preciosas fantasias de cada um de nós.

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A um certo tempo, éramos apaixonados por um botequim de São Paulo, habilmente disfarçado de restaurante francês. Há mais de 50 anos, o “La Casserole” exercita sua vocação como refúgio de boa comida e boa convivência. Alguns acreditam que o marché de fleurs, situado em frente, foi providenciado para acrescentar charme parisiense a um botequim brasileiro à moda francesa. Um amigo frequentador do lugar chama a atenção para os velhos lambris de madeira e garante que não foram encerados desde quando o chef Paul Bocuse passou a mão neles, quando   jantou lá, em 1990. Apenas isso garante que estamos em um botequim da melhor estirpe.

O Rio de Janeiro tem uma história de grandes botequins, inclusive em uma genuína versão britânica – o public bar, ou pub para os íntimos. O “Lord Jim”, na rua Raul Redfern, na fronteira entre Ipanema e Leblon, foi caso raro de sobrevivência do botequim clássico aos modismos dos novos tempos. Era frequentado pelas tripulações dos navios de Sua Majestade em manobras pelo Atlântico Sul. Que se portavam de acordo com as tradições dos velhos marinheiros – bebendo cerveja preta aos galões, devorando imensas porções de Sheperds’ Pie e depois dançando em cima das mesas.

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Nos tempos em que Porto Alegre tinha fama de ser uma das cidades com a melhor gastronomia no Brasil, existiu, durante dezenas de anos, uma preciosidade inesquecível – o “Bar Hubertus”. Mais do que um refinado botequim, era um bierkeller, ou seja, lugar para se beber cerveja e comer bons petiscos. Um boteco com sotaque bávaro, que nunca mais foi replicado. Seu nome homenageava Santo Hubertus, padroeiro dos caçadores e bispo católico do século XII. Nas paredes, belos afrescos contavam da lenda do cervo sagrado, que habitava a floresta das Ardenas.

Mas o “Hubertus” criaria suas próprias lendas – feitas de suculentas e macias almôndegas de carne com ervas e dos incríveis sanduíches de lombo de porco, cobertos de salada russa.

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Um velho amigo gosta de percorrer as ruas de New York, em busca da versão local de um autêntico botequim. Sua pesquisa rendeu muitas experiências etílicas e gastronômicas e uma certeza: quem mais entendia de botequins na Costa Leste, eram os sedentos imigrantes irlandeses. Saudosos de suas tradições de bons de garfo e copo, deixaram um legado de famosas taverns e inns, onde imperavam as cervejas fortes e comida camponesa de raiz. Ele não gosta de dar o endereço de suas descobertas, apenas algumas pistas – diz que o “Peculier Pub” tem um cardápio com mais de 100 marcas das melhores cervejas irlandesas, inglesas e belgas.

O “Corner Pub”, é o lugar para encontrar Anthony Bourdain, comendo o imenso sanduíche de pastrami, que é o grande sucesso da casa.

Já o “Old Town” é um botequim irlandês que fabrica sua própria cerveja, desde quando abriu suas portas, em 1892. Acabou sendo adotado pelos executivos de publicidade da vizinha Madison Avenue, seguindo os passos de quem teria descoberto o lugar – David Ogilvy, que podia ser visto junto ao balcão de zinco, fumando cachimbo e discutindo campanhas para a Hathaway. Um dos mais charmosos e elegantes lugares para o happy hour em Manhattan continua sendo o icônico “Bull & Bear”, nos fundos do Waldorf Astoria. Ali se serve bebidas desde o dia seguinte à revogação da lei seca. Falamos de um botequim sofisticado, onde é obrigatório o paletó, o que não é exatamente característica dos botecos de verdade.

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Nos dias atuais, não há como escapar das modernidades nos botequins fakes que surgem por toda a parte. É preciso conviver com os simpáticos jovens, de longos aprons pretos e gel nos cabelos, anotando os pedidos em maquinetas sem fio. Os arquitetos e decoradores fazem o possível para tentar reproduzir o ambiente – ou a alma – dos velhos bistrôs e tavernas.

Mas não há como deixar de sentir a falta dos velhos lambris escurecidos pela fumaça dos cachimbos e charutos, que passaram por ali. Ou dos balcões de zinco, marcados por incontáveis copos e garrafas que foram enchidos e esvaziados. Mais do que boa bebida e uma comida honesta, o que aspiramos em um lugar como este, seja botequim, bistrot ou pub, é a impalpável herança dos que nos precederam e que ali tiveram algumas de suas melhores horas. Quando chega a hora de um destes veneráveis lugares fecharem as portas, o fascínio nunca se esvanece de todo – permanece na memória afetiva do quartier, da rua, do nosso grupo de amigos.

O que sentimos por estes refúgios deve ter algo a ver com nossa busca de alguém que perdemos nos desencontros da vida. Ou apenas porque precisamos de uma concha que nos proteja das agruras do mundo que deixamos do lado de fora.

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Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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