A semana começou com o feriado de 21 de abril, rememorando a Inconfidência Mineira como primeiro marco histórico da nossa independência e reverenciando a memória do herói nacional, Joaquim José da Silva Xavier, alferes do Exército português e cirurgião-barbeiro, conhecido por Tiradentes, pela habilidade e rapidez com que extraía dentes, encurtando o sofrimento dos pacientes, quando nem se falava em anestesia.
Foi, de fato, momento importante da História Pátria, mas não o único sonho revolucionário que precedeu a Independência. Foi incluído entre as nossas datas magnas – vem logo depois do Sete de Setembro – por conveniência política. Em 1870, quando se realizou o Congresso de Itu e recrudesceu a propaganda republicana, houve necessidade de se encontrar um mártir para sacralizar o movimento. O médico Pedro Bandeira de Gouveia propôs Tiradentes como personagem porque sua tragédia pessoal se ajustava ao papel pretendido: de origem humilde, irreprimível idealismo que o tornava imprudente na pregação política, foi o único a ser executado, em uma lista numerosa de políticos, juristas, mineradores e fazendeiros.
A sacralização, contudo, redundou em mitos que até hoje são objeto de incandescentes polêmicas. Há até quem manifeste a convicção de que o enforcamento de Tiradentes, apesar de os juízes terem ordem expressa da Coroa, de não condenar ninguém à morte, deveu-se a que não tinha dinheiro para subornar os juízes a fim de obter sentença mais leve.
Os fatos não confirmam a suspeita. A ordem da Coroa, de não condenar ninguém à morte, veio antes de se iniciar o processo e não era nenhuma benevolência. Todos sabiam que a Inconfidência Mineira não passava, como já disse alguém, de um piquenique de intelectuais. Falavam muito em República, em não pagar o imposto do ouro exigido pela Coroa lusitana, mas não passava disso. Ninguém tinha um projeto de revolução. Além de faltar meios materiais, não havia nem força nem disposição para fazer qualquer coisa.
Foi por acaso que Tiradentes entrou na conspiração. Viajava muito ao Rio de Janeiro, para conseguir a concessão do fornecimento de água à população carioca e vivia gabando-se da fortuna e do conseqüente poder que ganharia se o seu projeto fosse aprovado.
Os inconfidentes viram no alferes o mensageiro ideal. As viagens freqüentes, com objetivo conhecido, o tornariam insuspeito como para levar mensagens secretas aos conspiradores do Rio de Janeiro. Só não contavam com a sua tagarelice. Ele acrescentava às suas jactâncias de poder, o tempo em que assumiria papel de relevância na nova República.
Essa é a conclusão que se tira dos depoimentos colhidos na Devassa, o processo que julgou os inconfidentes. Enquanto os demais buscavam atenuar sua culpa, Tiradentes percorreu caminho contrário. Gradativamente tomado por delírio de grandeza, o que fez Tancredo Neves chamá-lo de “herói enlouquecido de esperança”, assumiu a responsabilidade integral do movimento.
Foi seu passaporte para a História.

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