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O mundo é dos tristes

Cecília Meireles faria 105 anos em 2006. Ela não suportaria estar carregando o corpo-invólucro tanto tempo. Fu Lana foi absolvida por seus poemas e …

Cecília Meireles faria 105 anos em 2006. Ela não suportaria estar carregando o corpo-invólucro tanto tempo. Fu Lana foi absolvida por seus poemas e sua filosofia de vida. Sobre os tristes paira a bênção universal.

Havia algo de estranho naquela guria. Em 1978, no saguão da faculdade de Comunicação, sobravam cartazes nas paredes. Cartazes que ela mesma pintava para a tendência que fosse (menos para a direita). No entanto, em meio à efervescência das idéias, gostava mesmo é de observar a fila de formigas que entrava no Diretório Acadêmico. Cada uma carregando seu graveto, sua folha. As colegas do Turismo, do alto de seus saltos e echárpes, comentavam: moça estranha aquela agachada na porta. Sem contar a observação sobre suas roupas surradas que denunciavam a ênfase ao ser e não ao ter. Lendo Cecília Meireles tardiamente, Fu Lana sente-se aliviada. Segundo a poeta, contemplar os entes em suas vidas sem revoltas e em plena aceitação do seu destino era, primeiro, perceber e, depois, compreender o funcionamento do universo. E não se pode ser um qualquer para fazer isso. Ela mesma, Cecília, observava jumentinhos, que com pesadas trouxas seguiam o caminho com olhos tristes. Alguns se perguntam para onde vão os clips. Cecília perguntava para onde vão os jumentinhos. Fu Lana encontrava sentido em descobrir aonde iriam as formigas. Fazia mais sentido do que aquilo que acontecia ali mesmo, a metros do chão, na década de 70.

Ser poeta requer mesmo um algo que não se formula. Uma busca incessante. No entanto, para apreciar poesia, basta sensibilidade e alguma iluminação. Cecília entende que os tristes assim o são, pois compreendem que a essência do mundo é corrompida pelos homens e sua cobiça. E que a tristeza abençoa o ser porque ele percebe a grandeza da existência e o quão destrutiva podemos tornar a vida real. A vida terrena é ilusão – Maia, diz Cecília, imersa em sua admiração pelo pensamento oriental. Seres inconscientes, “felizes”, desconhecem o ser humano. E aquelas peruas turísticas estavam condenadas a serem ignorantes.

A todas essas, Fu Lana não precisava exagerar. Outro dia, estava ouvindo rádio. O locutor anunciava que faria naquele momento o sorteio de uma televisão. O acertador deveria ter passado a semana inteira ouvindo a estação (diuturnamente, provavelmente se revezando com amigos e parentes) e ter anotado uma frase dita aos pedaços. Ele deveria citar pausas, vírgulas, preposições, tudo exatamente como foi dito na programação. Três ouvintes já tinham fracassado quando uma voz desafinada de uma moça tatibitati conseguiu, ansiosamente, terminar a frase. Fu Lana desatou em choro, soluçava como se houvesse perdido alguém, ou encontrado, pois estava contente. Percebeu seu desespero e, secando o rosto, desligou rapidamente o aparelho. Andava carente, pensou, olhando para os lados para ver se alguém a havia fisgado em um momento tão popular. Depois de encontrar (ou reencontrar Cecília) foi novamente absolvida. É da contemplação de situações domésticas, por menores que sejam, que o ser humano revela sua essência solidária e percebeu sua comoção com a voz desafinada de uma anti-heroína, de uma pessoa esperançosa, desejosa seja lá pelo que for. Até pelo fato de ganhar uma tevê. Viva Cecília. E fica a estrofe que justifica esta clônica:

“Eu, do coração para cima sou toda lágrimas:
qualquer movimento abala esta secreta arquitetura,
qualquer pequeno descuido pode derramar este oceano sempre crescente
(…)”

 

P. S: Sugestão de leitura: Oriente e Ocidente na poesia de Cecília Meireles. Ana Maria Lisboa de Mello e Francis Utéza. Co-edição Fapa, Université Paul Valéry, Libretos. 2006. R$25,00

Autor

Clo Barcellos

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