Nem sei quantas vezes já havia olhado a página da Ufrgs na internet. E nada. Só a informação angustiante de que a lista dos aprovados no concurso vestibular 2012 estaria disponível no link depois das 16h30mim. E o que faz uma mãe coruja assumida de uma vestibulanda de primeira viagem que não havia sido inscrita em mais nenhum outro processo seletivo? Rói as unhas. Enrola os pequenos fios de cabelos 559 vezes. Come chocolate (azar as dietas milagrosas). Escreve no status no face que aguarda o resultado. Avisa no serviço que está nervosa (como se ninguém ainda tivesse percebido o estado alterado de comportamento).
Depois de vários cafés, editar matérias no portal, andar 20 vezes de um lado ao outro do corredor, a notícia corre rápida. “Saiu o listão da Ufrgs”, berra o estagiário que prestara vestibular para Ciências Sociais, do outro canto da sala. Entristeço de imediato e comento com a colega mais próxima: “Gabriela não passou, senão já teria me ligado”. A voz acalmadora da vizinha de mesa na redação esclarece: “A tua filha tá esperando a lista sair mais tarde e nem viu ainda”. Será? Bem, ela pode ter razão. O relógio do computador mostra que são 15h15min. E a Ufrgs anunciara que o listão seria divulgado apenas às 16h30min.
Impulsionada pela intuição de mãe e alimentada pela coragem materna, olho nervosa o listão no site da Ufrgs. Clico na letra G. O coração está disparado. O suor escorre pela testa, contrariando a funcionalidade do ar condicionado. A voz treme. Não enxergo nada. A visão está embaralhada. A colega pede o nome completo da minha filha. Gabriela Martins Trezzi. Está lá. Na lista dos aprovados. No primeiro semestre. No seu primeiro vestibular. Para Relações Públicas (sim, ela desistiu de Jornalismo). Salvei a página e imprimi.
O relógio apontava 15h20min. Telefono para avisar Gabriela. Ela não acredita e reforça que a lista só estaria liberada às 16h30min. “Filha, a mamãe não iria te enganar. Eu vi teu nome. Salvei a lista. Já colei no face. Olha lá”, tranquilizo minha ex-pequena. E, depois de dizer 32 vezes que eu estava muito feliz e parabenizar Gabriela, telefonei para os parentes mais próximos, que são poucos porque a família não é numerosa. E se eu pensava que toda a emoção iria passar depois de ver seu nome como aprovada, mais um engano. Ainda estou completamente feliz e emocionada com a conquista.
Minutos após, minha filha desabafa no celular porque não consegue abrir a lista da Ufrgs. Ela diz que eu devo estar influenciada porque o listão não está disponível e acredita em mim, mas precisa ver o seu nome. Descubro que por um erro da Ufrgs, a lista entrou antes na internet e ao perceber o equívoco, foi retirada em seguida. Não me importa mais. Nada vai mudar. O nome dela estava lá. No listão dos aprovados. E mais. Nas duas listagens. Na liberada por erro e na definitiva. Não tive mais dúvidas.
Cenas do passado invadem minha memória. O nascimento naquele final de tarde de um quente dezembro de 1994. As duas noites em casa ao sair da maternidade em que a rotina dela era vomitar, fazer coco e chorar. O primeiro antibiótico em maio de 1995 depois que foi para a creche. A vacina naquela perninha gorducha. O passo incerto sem ninguém segurando no dia do aniversário de um ano. A formatura na creche. Uma tarde feliz no circo aos sete anos. As festas de aniversário quando era criança. O início da adolescência. O primeiro show. A saída noturna. Os namoros. As opiniões próprias. As férias longe de mim. As saudades. Os abraços. Os beijos. As brigas.
Tudo relembrado de forma tão nítida como se estivesse acontecendo naquele momento. As lágrimas de mãe babona já não se seguram mais. Molham o rosto, a roupa e não são mais contidas. É um ciclo sendo encerrado. Valeu a pena toda a educação, severa e rabugenta, às vezes, ou liberal, quando a ocasião pedia. Valeu cada noite mal dormida. Valeu cada centavo que foi investido. Valeu cada carinho e cada cara amarrada. E como postei no meu face: “Mas é boa demais esta guria, a Gabriela Trezzi”.

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