O canal Sony exibiu recentemente um documentário chamado Vivendo com Michael Jackson, produzido e apresentado pelo jornalista britânico Martin Bashir, que se tornara célebre ao arrancar confissões amorosas de Lady Di. O popstar abriu as portas de seu rancho, Neverland, para que Bashir o entrevistasse, filmasse o que quisesse e convivesse com ele e seus empregados ao longo de meses. Bashir também o acompanhou em viagens e passeios. Inconformado com o que considerou comportamentos excessivamente distintos de Bashir no que foi e no que não foi ao ar, e com o fato de ele ter deixado de fora trechos supostamente importantes em uma composição mais completa de seu perfil, Michael entregou à Sony o material gravado por seu cinegrafista particular. A emissora montou um novo documentário, exibido no último domingo.
Bashir inegavelmente quis roubar a cena. Além de aparecer em demasia, fez questão de posicionar-se de forma agressiva e politicamente correta, o que não é difícil quando se tem um interlocutor tão polêmico. O cantor, é claro, queria passar uma imagem totalmente positiva. A Sony jura que editou o material segundo critérios jornalísticos, sem interferência do artista (os CDs de Michael Jackson levam o selo da gravadora Sony). Seja como for, o interessante na comparação dos dois documentários é comprovar como, com o mesmo material, o mesmo personagem, a mesma biografia, as mesmas polêmicas, é possível montar contextos tão diferentes.
Jornalistas sabem o quanto a edição pode alterar o conjunto dos fatos, ainda que se utili-zem as mesmíssimas informações. Mas poucas vezes na história da televisão isso ficou tão evidente para o público. Guerras proporcionam distorções imensas, mas aí se trata de um evento no qual a verdade é apenas uma das vítimas. Além do mais, em situações extremas, a própria imprensa se fiscaliza. O problema é no dia-a-dia. Se mesmo no caso de temas de repercussão internacional, mas que não envolvem matanças, a tendência é não se dar muita bola para tais deturpações, é de se imaginar a que ponto elas podem chegar em matérias comuns, nas quais os personagens são meros e indefesos mortais.
Regimes totalitários especializam-se em editar a realidade de acordo com sua vontade. É clássico o caso das manipulações de fotos na União Soviética, e isso que não havia photoshop, sequer computador. Na era digital a manipulação está ao alcance dos dedos de qualquer criança. Mas não é qualquer criança que ocupa cargo de editor. Isso exige um pouquinho mais. Pode-se examinar currículos com lupa, exigir fluência em idioma estrangeiro ou até um MBA, mas jamais será possível detectar previamente incompetências sutis ou mentes com tendência a distorções. E, ao contrário do que ocorre em governos ditatoriais, em democracias a deturpação é franqueada a qualquer editor. Tremenda responsabilidade para uma mídia frágil, influenciável, por vezes sensacionalista, ou até corrupta. A vida sexual de Michael Jackson pode não lhe interessar, mas nem sempre a coisa é tão distante. Somos todos vítimas potenciais.
* Eliziário Goulart Rocha é jornalista e escritor, autor dos romances Silêncio no Bordel de Tia Chininha e Dona Deusa e seus arredores escandalosos e da ficção juvenil Elyakan e a De-sordem dos Sete Mundos.

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