
Houve um tempo que as pessoas tinham tempo de sobra para ler, para pensar e refletir. As máquinas eram rústicas e poucas, pois quase tudoera feito à mão – e as pessoas sentiam orgulhonisso. Era inimaginável encontrar “Made in China” na camisa ou na chícara do café-da-manhã. Aviões a jato? Só nas estórias em quadrinhos de Flash Gordon – o transporte mais moderno de nosso tempo eram os bondes amarelos da Carris. O boné de aba sobre os olhos era usado por jogadores de baseball,já que cavalheirosde fino trato usavam chapéus Ramenzoni,enquanto as mulheres caprichavam na toalete para passear na Rua da Praia e espiar as vitrinas da Cecília Louro e da Casa Krahe.
A moçadadecorava as letras das marchinhas em moda bem antes do Carnaval chegar. Os foliões se vestiam de pirata ou dejardineira e o grande barato era espirrar lança-perfume Rodo nas pernas das meninas do bairro.
E quando chegavam as inevitáveis tosses de inverno, tomava-se o Xarope São João e bicabornato de sódio quando doía a barriga.Houve um tempo em que os telefones eram pretos e as camisas sociais, sempre brancas. E era indispensável usar paletó e gravata para embarcar nos aviões da Varig. A televisão era em preto-e-branco e a tela cheia de chuviscos. Nossa adolescênciamal conseguia esperar crescer para usar ternos de risca de giz, com calça de boca apertada e lenço de ponta no bolsinho.
A nova moda era cabelo abotoado na nuca, à base de Gumex ou Brilhantina. Todo mundo escrevia e recebia cartas e telegrama da Western,somente para informar que alguém morrera.
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Naquele tempo, a polícia se ocupava prendendo batedor de carteira, ladrão de galinha e um ou outro sambista de má fama. Brincos e rabo-de-cavalo eram de uso exclusivo para mulheres e nunca soube de alguém rasgar a calça faroeste para parecermoderno. E se bem me lembro, os homens abriam a porta do carro para as senhoras e não se falava palavrão dentro de casa.
A modernidade chegava com as blusasde ban-lon,ternos de terilene ou de tergal – com calças que não perdiam o vinco. No cinema, os mocinhos usavam chapéu branco e os vilões, chapéu preto e meio charuto na boca. Nossas mães nos faziam engolir óleo de fígado de bacalhau e nossos pais fumavam cigarros Liberty, Elmo ou Yolanda.
Na farmacinha de casa, nunca faltavam o Leite de Magnésia de Phillips, o Saphrol, o Phimatosan e a Cibalena. Sem falar nas Pílulas de Vida do Doutor Ross e nos inevitáveis Melhoral e Cafiaspirina.
Os cariocas desfilavam moda naConfeitaria Colombo e os gaúchos,na Confeitaria Rocco.Depois ou antes de comprar na banca o último número da Fon-Fon ou da Cigarra, com Dorothy Lamour na capa.
Usando Loção Atkinson ou Cashemere Bouquet, senhores e senhoras liam distraídos, o cartaz nos bondes:
“Veja ilustre passageiro o belo tipo faceiro
que o senhor tem a seu lado.
Mas, no entretanto, acredite, quase
morreu de bronquite, salvou-o o Rhum Creosotado!”.
Foi-se o tempo da Cafiaspirina, da compressa de Antiflugestina, do Bálsamo Bengué e da cera Parquetina. E dos leitores do Tico-Tico e da revista Para Ti. O tempo em que trabalhador não fazia greve e quando os políticos tinham vergonha na cara. Dos discursos do Getúlio e dos filmes mudos do Carlitos e do Buster Keaton.
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São tesouros perdidos de um tempo passado, que o hilário Apparício Torelly, o inesquecível Barão de Itararé, rotulou como “O Tempo do Onça”, sem nunca explicar exatamente quem era o tal de Onça.
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