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O Onça

Por José Antônio Moraes de Oliveira

Houve um tempo que as pessoas tinham tempo de sobra para ler, para pensar e refletir. As máquinas eram rústicas e poucas, pois quase tudoera feito à mão – e as pessoas sentiam orgulhonisso. Era inimaginável encontrar “Made in China” na camisa ou na chícara do café-da-manhã. Aviões a jato? Só nas estórias em quadrinhos de Flash Gordon – o transporte mais moderno de nosso tempo eram os bondes amarelos da Carris. O boné de aba sobre os olhos era usado por jogadores de baseball,já que cavalheirosde fino trato usavam chapéus Ramenzoni,enquanto as mulheres caprichavam na toalete para passear na Rua da Praia e espiar as vitrinas da Cecília Louro e da Casa Krahe. 

A moçadadecorava as letras das marchinhas em moda bem antes do Carnaval chegar. Os foliões se vestiam de pirata ou dejardineira e o grande barato era espirrar lança-perfume Rodo nas pernas das meninas do bairro. 

E quando chegavam as inevitáveis tosses de inverno, tomava-se o Xarope São João e bicabornato de sódio quando doía a barriga.Houve um tempo em que os telefones eram pretos e as camisas sociais, sempre brancas. E era indispensável usar paletó e gravata para embarcar nos aviões da Varig. A televisão era em preto-e-branco e a tela cheia de chuviscos. Nossa adolescênciamal conseguia esperar crescer para usar ternos de risca de giz, com calça de boca apertada e lenço de ponta no bolsinho.

A nova moda era cabelo abotoado na nuca, à base de Gumex ou Brilhantina. Todo mundo escrevia e recebia cartas e telegrama da Western,somente para informar que alguém morrera.

***

Naquele tempo, a polícia se ocupava prendendo batedor de carteira, ladrão de galinha e um ou outro sambista de má fama. Brincos e rabo-de-cavalo eram de uso exclusivo para mulheres e nunca soube de alguém rasgar a calça faroeste para parecermoderno. E se bem me lembro, os homens abriam a porta do carro para as senhoras e não se falava palavrão dentro de casa.

A modernidade chegava com as blusasde ban-lon,ternos de terilene ou de tergal – com calças que não perdiam o vinco. No cinema, os mocinhos usavam chapéu branco e os vilões, chapéu preto e meio charuto na boca. Nossas mães nos faziam engolir óleo de fígado de bacalhau e nossos pais fumavam cigarros Liberty, Elmo ou Yolanda.

Na farmacinha de casa, nunca faltavam o Leite de Magnésia de Phillips, o Saphrol, o Phimatosan e a Cibalena. Sem falar nas Pílulas de Vida do Doutor Ross e nos inevitáveis Melhoral e Cafiaspirina. 

Os cariocas desfilavam moda naConfeitaria Colombo e os gaúchos,na Confeitaria Rocco.Depois ou antes de comprar na banca o último número da Fon-Fon ou da Cigarra, com Dorothy Lamour na capa.

Usando Loção Atkinson ou Cashemere Bouquet, senhores e senhoras liam distraídos, o cartaz nos bondes:

“Veja ilustre passageiro o belo tipo faceiro

que o senhor tem a seu lado.

Mas, no entretanto, acredite, quase

morreu de bronquite, salvou-o o Rhum Creosotado!”.

Foi-se o tempo da Cafiaspirina, da compressa de Antiflugestina, do Bálsamo Bengué e da cera Parquetina. E dos leitores do Tico-Tico e da revista Para Ti. O tempo em que trabalhador não fazia greve e quando os políticos tinham vergonha na cara. Dos discursos do Getúlio e dos filmes mudos do Carlitos e do Buster Keaton.

***

São tesouros perdidos de um tempo passado, que o hilário Apparício Torelly, o inesquecível Barão de Itararé, rotulou como “O Tempo do Onça”, sem nunca explicar exatamente quem era o tal de Onça.

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Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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