Em 1881, Porto Alegre viveu uma comédia quando o artista Veríssimo Barbosa de Souza convenceu-se de que inventara o navio movido a pressão de ar. Estava “assuntando”, sem o que fazer, a idéia lhe veio à mente.
Não perdeu tempo. Construiu um pequeno modelo, fez experiências na banheira de casa e se entusiasmou. Radiante e já antevendo a fortuna que a invenção poderia lhe trazer, contou tudo em segredo a alguns amigos mais chegados.
A idéia era fascinante, e os amigos de Veríssimo acabaram contaminados com seu entusiasmo. Eles e o estimularam a fundar uma empresa, para construir o navio que haveria de revolucionar a navegação mundial.
Veríssimo não teve dificuldade de levantar o capital. Batizou o notável invento de Primor da Arte. Logo pôde construir um trapiche e começou a montar a traquitana. Ninguém sabe por que, de repente, a cidade se tomou de demência. Não se falava de outra coisa, todos queriam associar-se ao empreendimento, os primitivos sócios recusavam novas adesões. No máximo, assim mesmo a amigos muito chegados, concordavam em ceder algumas poucas cotas, assim mesmo com respeitável ágio.
A construção do Primor da Arte foi demorada, o que alimentou ainda mais o delírio. Correram rumores de espionagem internacional, de uma corporação inglesa pressionando para comprar o navio. Assunto tomou tal proporção que o governo da Província contratou engenheiros para avaliarem o projeto.
O laudo, negativo – não passava de mirabolância – serviu para alimentar a polêmica. Os entusiastas do Primor da Arte o receberam com desprezo. Que todos esperassem para ver quem estava com a razão. Depois, não se queixassem da sorte que lhes batera à porta e a encontrara fechada.
O tempo foi passando e o Primor da Arte não dava o ar da sua graça. Os acionistas começaram a pressionar Veríssimo e o fizeram apressar o arremate do navio. Foi programada com alarde a viagem inaugural que deveria terminar em Triunfo, onde os numerosos adeptos do empreendimento ofereceriam uma festa para comemorar o sucesso.
Dito, mas não feito. A decepção começou
Na hora de partir, o desastre. Os foles não davam conta, o Primor da Arte foi se arrastando à custa de remo, com o devido acompanhamento de palavrões, até conseguir aportar em Triunfo dois dias depois.
Veríssimo tentou em vão tirar o corpo fora, alegando que a “pressa” resultara em foles defeituosos. De nada valeu. A empresa foi dissolvida, cada um ficou com seu prejuízo e ele foi literalmente cantar em outra freguesia.
Poucos anos mais tarde, protagonizou episódio semelhante no Pará, onde “inventou” um avião também revolucionário. Depois disso, sumiu na História.

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