A distância entre a sala do executivo de uma agência de propaganda e um pequeno sítio entre araucárias centenárias não é tão grande como se pensa. É uma distância proporcional ao desencanto que sobreassalta o publicitário quando ele percebe que os desafios perderam seu poder e os anúncios ficam repetitivos e sem graça.
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Este pensamento me ocorreu quando do reencontro com um veterano das lides publicitárias. Ele estava tentando convencer um gerente de supermercado a ceder espaço nas gôndolas para os queijos de leite de cabra que fazia. Ironias da vida, pensei, ao resgatar o amigo para uma conversa desde muito adiada. Recordei as campanhas que ele havia desenvolvido e que venderam produtos de grandes marcas, que dominavam as mesmas prateleiras onde ele agora buscava alguns centímetros para os seus pequenos boursins.
Sentamos no café mais próximo e quis saber o que acontecera com a charmosa e irresistível deusa da publicidade. Ele disparou:
“- Eu a abandonei para me transformar em criador de cabras francesas e produtor de queijos”.
Então, desfiou a história de alguém que tinha tido a coragem de romper os laços com a profissão mais excitante do mundo, para mudar radicalmente seu norte de vida. Contou que, em certo dia, olhara ao redor e se dera conta de que os jovens que chegam nas agências estão melhor preparados para a realidade dos novos tempos. E que o espaço reservado para os idealistas dos heróicos tempos está cada vez menor e que poucos lembram o mandamento de David Ogilvy:
“O consumidor não é um idiota, ele é a sua mulher – nunca escreva um anúncio que não gostaria que a sua familia lesse.”
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Procurei nos olhos e palavras de meu amigo um sinal de arrependimento ou amargura, mas não vi nenhum. Ele simplesmente decidira mudar seu rumo e estava empenhando todas as suas energias na tarefa. Entusiasmado, disse que levantava ao clarear do dia para alimentar as cabras e cuidar da produção do leite. Deixara de fumar, jogara fora o estoque de xaropes e pílulas e, à noite, dormia como uma criança.
Quando estava no topo da carreira, recebia centenas de telefonemas e dezenas de revistas, que não tinha tempo para ler. Agora, procura sua correspondência na agência de correios e carrega um celular que raramente toca. Mas revela, com uma ponta de orgulho, que agora é o próprio cliente – desenha os rótulos dos queijos, fiscaliza sua produção, faz prospecção e ainda promove sessões de degustação em hotéis e restaurantes.
Perguntei-lhe se sentia falta da adrenalina dos velhos tempos e ouvi um imediato “nem um pouco”. Mas quando falei dos velhos e queridos amigos da profissão, confessou:
“Para se ter direito a um recomeço, é preciso sacrificar algo – a distância dos bons amigos é o preço que se paga”.
Antes de ir, ainda lembrou de um certo episódio, quando um VIP da agência onde trabalhava o convidou para um passeio no Central Park, em Nova York. Diante de um grande carvalho inglês, o experiente publicitário fez uma pausa e disse que aquela árvore centenária era uma parábola para os que vivem de motivar pessoas – resiste às intempéries, muda a paisagem ao seu redor, gera sombra e ainda produz milhares de sementes que os pássaros semeiam por onde voam.
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Meu amigo perguntou pelas horas, despediu-se e retornou ao supermercado. Foi continuar o trabalho de convencer o gerente a abrir espaço nas prateleiras para seus pequenos queijos de leite de cabra.
Disse para mim mesmo que ele ainda era – e nunca havia deixado de ser, um publicitário.
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Nota do Editor – Esta crônica foi publicada por Coletiva em 16/01/2006. Foi reescrita pelo autor, mas seu personagem continua o mesmo, o publicitário Carlos Schneider, falecido nesta semana.


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