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O que é o homem?

A vida real transformada em desenho animado traz uma atmosfera incrível. As pessoas tornam-se de verdade mesmo é no desenho, até entre uma respiração …

A vida real transformada em desenho animado traz uma atmosfera incrível. As pessoas tornam-se de verdade mesmo é no desenho, até entre uma respiração e outra. Os olhares traduzem o que os homens em carne e osso escondem: tristeza, saudade e arrependimento. Os movimentos, econômicos, são de uma intensidade digna de qualquer cine-action. Valsa com Bashir é um documentário feito em animação sobre a guerra no Líbano nos anos 80 e mostra também o massacre de palestinianos em Beirute pela falange cristã, com a participação silenciosa dos judeus.

O Líbano, na memória de Fu Lana e no imaginário coletivo, esteve sempre em destroços. Sírios, palestinos e israelenses revezam-se em assassinatos, revoltas e ataques. Pelo poder. Difícil entender as imbricadas relações que levam aquela região à auto-destruição.

No entanto, na técnica do desenho animado em Valsa com Bashir, o resultado é um grande espaço de reflexão: afinal, de que é feito um homem? Amplia nossa percepção. O homem de desenho chega até nós desprovido de nacionalidade, de carga histórica, ou de origem geopolítica. E entendemos melhor o que se passa com ele.

Quando os soldados desorganizados, imundos e em trapos fumam haxixe e têm um olhar vago, atirados em uma praia à espera de ordens, a carga moral que poderia dispersar nossa atenção é eliminada, e compreende-se quanto é imbecil essa situação de guerra e como valem pouco aquelas vidas colocadas em perigo. Ou o quanto é desimportante para os que produzem uma guerra a mesma respiração e a energia humana registradas pelo desenho.

Assim como na memória de Fu Lana há informações desencontradas sobre a história específica daquele ponto geográfico da Terra, na mente do personagem-narrador e realizador do desenho, Ari Folman, a amnésia domina. Um esquecimento em nome da sobrevivência.

Um sonho recorrente de um amigo – a cena inicial do filme – faz com que Ari se dê conta de que apagou tudo o que aconteceu na guerra da qual participou com 19 anos, seja em diversos atentados, seja na cronologia dos fatos. Mesmo em sonhos, tem lampejos e lembranças esparsas e resolve, então, sair entrevistando seus colegas, antigos camaradas,  ajudando-nos a montar um complexo quebra-cabeças.

Valsa com Bashir mistura momentos de diálogos internos com cenas reais, viagens espirituais e sentimentos, através de depoimentos de personagens reais transformados em figuras desenhadas.

A música é um misto de clássico e contemporâneo, onde a valsa tem um papel importante, assim como o rock e as baladas. A música embala e traduz os confusos pensamentos de soldados adolescentes em qualquer guerra, tal como nos anos 60, no Vietnan.

Entorpecidos pela beleza do desenho e pelos movimentos suaves entre os diálogos, com as diferentes personalidades de cada personagem, suas histórias e depoimentos, vagando como eles, sob memórias, somos conduzidos a um desfecho surpreendente. Um capítulo final que nos deixa iluminados, acesos, como quando voltamos de um desmaio. Passamos a ver, por um insight.

A guerra tem milhares de lados. Cada homem tem sua razão para matar. O principal deles é o medo.

O povo cristão perdeu seu líder assassinado, Bachir Gemayel e resolveu devolver ao povo palestiniano a mesma intensidade de revolta e violência. Soldados israelenses, em tropas comprometidas no conflito, sentiram-se os próprios nazistas, e tendo seus pais judeus vivido situações exatamente inversas, os sentimentos ficaram confusos demais para simples mortais.

Se é difícil compreender pela razão, melhor deixar os sentimentos assistirem ao filme. Dê folga aos neurônios e assista Valsa com Bashir pela arte do desenho, da música e do cinema. Mesmo assim, você vai colocar muitos dados a mais em seu hard drive.

Autor

Clo Barcellos

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