Às vezes, quando vou dormir, rogo para todos os deuses, santos, orixás, duendes, fadas e demais divindades, que ao acordar, no dia seguinte, tudo não terá passado apenas de mais um pesadelo, uma história mal elaborada, um capítulo de uma novela que não será gravado. Porque é complicado aceitar que com mais de 564 mil mortos em decorrência da Covid-19, do desrespeito do presidente Jair Bolsonaro com a pandemia do Coronavírus e deste disparate do voto impresso, ainda existam pessoas que ignoram o momento perigoso e cruel que o País e o mundo enfrentam com o desconhecimento da doença.
Nas poucas vezes que arrisquei sair às ruas, mesmo que para compromissos fora da agenda médica e de saúde, nestes meus 514 dias de confinamento, eu ainda me espanto ao ver pessoas caminhando nas ruas sem o uso correto das máscaras, sem o distanciamento necessário e lotando restaurantes e lojas sem a mínima preocupação com o tal aglomeramento. Juro por tudo que é mais sagrado, pelo sangue de Jesus e porque Deus é pai não é padrasto, que por vezes até chego a pensar que a exagerada, a descompensada, a que está vendo problema onde não existe, sou eu.
No domingo, num horário em que o sol estava mais forte – o que pressupõe a presença de menos pessoas – resolvi empreender uma caminhada pelo Brique da Redenção. Sem intenção de comprar nada, sem vontade de encontrar ninguém (não estava animada). Apenas deixar que o sol esquentasse um pouco minhas ideias, que as pernas perdessem um pouco o cheiro de ferrugem e que o ar saudável daquele verde me alimentasse. Quando percebi uma aglomeração de homens, mulheres, crianças e seus animais de estimação, tudo juntinho, dividindo o chimarrão ou a garrafa d’água e com as máscaras no pescoço, quase substituindo um colar, interrompi o passeio.
Na tarde de terça-feira, precisei de uma consulta dentária. Totalmente besuntada de álcool em gel, com uma roupa que iria depois direto para a máquina de lavar, máscara utilizada da maneira certa e uma de reserva na bolsa. De confiança total, ao receber outro paciente, a dentista trocou os seus EPIs e limpou todos os aparelhos e a cadeira. Encerrado o procedimento, ela me desejou sorte num novo ciclo que irei iniciar e me levou até o elevador. Ouvimos um barulho bem intenso de conversas que não combinavam com a orientação de não ter mais de duas pessoas no elevador. Resolvi descer de escada. Ao chegar no térreo, para meu espanto, vi saírem cinco pessoas do elevador, todas sem máscaras.
Então, fico imaginando que, sem tirar a culpa do irresponsável lá de cima que não planejou no momento correto a compra das vacinas, negou a necessidade do tratamento e ignora as medidas sanitárias, e de governantes que decidiram liberar tudo, ainda que não exista comprovação de que já é o momento, que algumas pessoas realmente não querem mesmo entender, aceitar, compreender o tamanho do caos que estamos vivendo. Enquanto isso, famílias e famílias choram a morte de seus entes queridos e sofrem com a ausência do processo de luto.


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