Há uma violência que nunca aparece nas estatísticas. Mas mata tanto quanto a que aparece.
Ela começa quando a agressão termina. É a violência que uma mulher sofre depois de ter sido violentada. É o olhar desconfiado. É a pergunta maliciosa. É a insinuação de que ela provocou. É a exposição pública. É a necessidade de reviver o trauma dezenas de vezes para convencer desconhecidos de que está dizendo a verdade. É ser colocada no banco dos réus enquanto o acusado ocupa o lugar da dúvida.
O caso envolvendo Thiago Brennand escancara esse problema. O Tribunal de Justiça de São Paulo absolveu o empresário em uma das acusações de estupro, revertendo uma condenação de oito anos. Entre os argumentos considerados no julgamento estava a interpretação de que o comportamento da vítima após os fatos seria incompatível com o de alguém que tivesse sofrido uma violência sexual.
E é justamente aí que mora um dos maiores absurdos.
Qual é o comportamento esperado de uma vítima? Quem definiu que existe um manual de reações depois de um estupro?
Ela deveria chorar por quantos dias?
Ficar em silêncio?
Entrar em depressão?
Nunca mais sorrir?
Nunca mais sair de casa?
Se suicidar?
Quem consegue afirmar, com absoluta certeza, como reagiria depois de um assalto? De um sequestro? De uma tentativa de assassinato? De sobreviver a um acidente? Por que imaginamos que existe um padrão obrigatório para alguém que acabou de viver uma das maiores violências possíveis?
A ciência já respondeu essa pergunta há muito tempo. Pessoas submetidas a traumas reagem de maneiras completamente diferentes. Algumas entram em choque. Outras tentam agir como se nada tivesse acontecido. Algumas choram. Outras não conseguem derramar uma lágrima sequer. Há quem procure ajuda imediatamente. Há quem demore meses ou anos para conseguir falar sobre o assunto.
Nenhuma dessas reações transforma uma vítima em menos vítima.
Quando passamos a julgar a forma como ela reagiu, deixamos de analisar a violência para analisar o comportamento da pessoa violentada. E isso é uma segunda agressão.
Talvez até mais cruel. Porque ela manda um recado para todas as outras mulheres.
O recado é simples: antes de denunciar, saiba que você também será julgada.
Não apenas pelo agressor. Mas pelo sistema. Pela sociedade. Pelas redes sociais.
E, muitas vezes, por homens que jamais passaram por uma experiência semelhante, mas acreditam saber exatamente como uma vítima deveria agir. E a punem com a injustiça, se eles entenderem que a vítima não reagiu como eles acreditaram que ela deveria. ELES!
Há outro aspecto impossível de ignorar. Thiago Brennand acumula um histórico de diversos processos e condenações relacionados à violência contra mulheres. Isso, por si só, não significa que ele seja automaticamente culpado em qualquer processo. Cada caso deve ser julgado pelas provas que contém. Esse é um princípio básico do Estado de Direito.
Mas é inevitável que a sociedade faça uma pergunta.
O que pesou mais nessa decisão?
O histórico do acusado ou a interpretação subjetiva sobre como uma mulher deveria ter se comportado depois da violência?
Essa pergunta não é um ataque à Justiça. É uma inquietação legítima!
Porque, quando o foco deixa de ser a conduta do acusado e passa a ser a reação da vítima, a sensação de injustiça cresce.
No fim das contas, a pior consequência não está apenas em uma absolvição.
Está na mulher que sofreu violência ontem, leu essa notícia hoje e decidiu que nunca vai denunciar. Porque concluiu que sobreviver ao agressor talvez seja menos doloroso do que sobreviver ao julgamento que vem depois.
E uma sociedade que faz uma vítima ter mais medo da denúncia do que da própria violência já fracassou muito antes da sentença ser publicada. Oremos e #RIPJustiçaBrasileira!!!


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