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O quinto mosqueteiro

Era uma gelada manhã de janeiro de 1825. Alexandre Dumas, então com 23 anos, abraça sua vocação de “herói romântico”, enfrentando seu primeiro duelo. …

Sem títuloEra uma gelada manhã de janeiro de 1825. Alexandre Dumas, então com 23 anos, abraça sua vocação de “herói romântico”, enfrentando seu primeiro duelo. O oponente é um soldado com quem discutira sobre um prosaico jogo de bilhar. O duelo se transforma em uma comédia de erros. Apesar do frio, Dumas despe a capa e o casaco, mas vê suas calças escorregarem, para diversão das testemunhas. Furioso, ele ataca o adversário, que recua alguns passos, tropeça    em uma raiz e desaba na neve. Dumas fica frustrado: “Mas eu nem toquei nele!”. Começava ali sua carreira de heroismos – verdadeiros e ficcionais.

***

Os biógrafos de Alexandre Dumas contam de suas outras desventuras. Um segundo duelo é adiado porque seu oponente fica gripado ao navegar no Canal Saint Martin. Um terceiro confronto é cancelado quando o adversário perde alguns dedos em um duelo anterior. E uma disputa com um notório político se transforma em acordo de cavalheiros – os duelistas concordam em tirar a sorte, o perdedor comprometendo-se a atirar em si mesmo.

Dumas perde no sorteio e retira-se para um aposento, fechando a porta atrás de si. Algum tempo depois, ouve-se um disparo de pistola, seguido de uma imprecação.  As testemunhas e o adversário encontram Dumas ileso e segurando sua pistola fumegante:

” – Senhores, aconteceu uma coisa lamentável – eu errei”.

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Depois de escrever várias peças de teatro, Dumas se dedica a novelas de aventuras, que rendem muito dinheiro, mas ele vive endividado, graças ao seu estilo de vida e envolvimento com mulheres. Atento aos hábitos do público, inova no formato de seus romances, reescrevendo-os como folhetins para jornais diários.

Casa-se com a atriz Ida Ferrier, mas continua envolvido com outras mulheres, sendo pai de pelo menos três filhos fora do casamento.

Um deles recebe seu nome e segue seus passos de novelista e escritor para o teatro. Com o mesmo nome e a mesma profissão de Dumas père, passa a ser conhecido como Alexandre Dumas, fils.

Para fugir dos credores, Dumas père viaja para Bruxelas e depois para a Rússia, onde seus romances de capa-e-espada são vendidos aos milhares. Em março de 1861, em busca de novas aventuras, viaja para a Itália, onde se envolve na luta pela unificação. Quando Vitor Emanuel II é proclamado rei, ele regressa a Paris.

Mesmo com o sucesso e suas ligações com a alta aristocracia, Dumas père sentia-se marcado por sua condição de mulato. Embora filho de ilustre figura, o general Thomas-Alexandre Dumas, nunca esqueceu ser neto de uma escrava negra, Marie Césette Dumas. Em sua novela Georges, ele aborda os problemas raciais derivados do colonialismo. Mesmo depois de sua morte, em dezembro de 1870, ainda havia quem questionava seu talento e sua importância na literatura francesa.

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Coube ao presidente Jacques Chirac redimir a memória de Dumas.   No dia 30 de novembro de 2002, seu corpo foi exumado do obscuro cemitério de Villers-Cotterêts, em sua cidade natal. O caixão foi solenemente conduzido por quatro gendarmes, vestidos como os mosqueteiros Athos, Porthos, Aramis e D’Artagnan. A nova sepultura de Dumas desde então é o Panteão de Paris, onde estão sepultados grandes filósofos e escritores da França, como Victor Hugo, Voltaire e Jean-Jacques Rousseau.

O inspirado elogio fúnebre do presidente Jacques Chirac foi reproduzido nos mesmos jornais em que Dumas publicava seus folhetins de aventuras:

 ” – Contigo, mestre Alexandre Dumas, nós fomos D’Artagnan, Monte Cristo e Balsamo, cavalgando pelas estradas da França, percorrendo campos de batalha, visitando palácios e castelos. Contigo, nós sonhamos.”

Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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