Enganadores povoam o universo da mídia. Especialistas na construção de textos estilosos destinados a encobrir a falta de informação ou profissionais que, em vez de diploma, deveriam receber porte de arma, são notórios inquilinos das concorridas baias das redações. Por ironia, a mãe de todas as fraudes aninhou-se justamente nas página do New York Times, a publicação mais respeitada do mundo tanto pelos jornalistas quanto por aqueles a quem os profissionais do ramo classificam, com certa arrogância, como “leitor comum”.
Jayson Blair superou-se. Criou fatos, inventou fontes e declarações, escreveu depoimentos sobre lugares nos quais jamais esteve, descritos a partir de fotos examinadas atentamente no aconchego do lar. Em quatro anos, produziu mais de 600 textos, agora todos sob suspeita. Blair demitiu-se ao ser flagrado. O New York Times tornou o processo de esclarecimento o mais cristalino possível e pediu aos leitores que enviem e-mails com informações que o ajudem a colocar tudo no devido lugar.
Tal transparência nem sempre é possível. Infelizmente, na maioria dos casos, o leitor é fraudado sem jamais ficar sabendo. Poucos exibem a cara-de-pau de Blair. Tamanha desonestidade é rara no jornalismo, embora declarações inventadas não sejam exatamente uma novidade. Bem mais freqüentes são os casos de imperícia. Só ocasionalmente detectados, tipificam crimes enquadráveis como de lesa-idioma, quebra de decoro midiático, raciocínio ilógico doloso ou relações impróprias com a fonte. Blair apenas partiu para a fraude explícita.
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Na estante obrigatória do jornalista, O reino e o poder, de Gay Talese, um magnífico retrato do jornal mais famoso e influente do mundo.
* Eliziário Goulart Rocha é jornalista e escritor, autor dos romances Silêncio no Bordel de Tia Chininha e Dona Deusa e seus arredores escandalosos e da ficção juvenil Elyakan e a Desordem dos Sete Mundos.

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