Era uma pequena loja ao final de uma rua estreita, em uma cidade da qual não recordo o nome. Eu passava sempre por ali cedo de manhã e ficava fascinado pelas dezenas de violinos dependurados nas paredes. Muitos cobertos de poeira, alguns ainda com lustro de novos, mas todos sem cordas, condenados a nunca mais tocar uma sonata de Mozart ou um adágio de Beethoven. Atrás do balcão, um homem silencioso, de guarda-pó cinza e óculos de aro de metal. Parecia um personagem de um romance do século XVIII. Eu conhecia aquela figura de algum lugar. Só não sabia de onde.
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Há muitos anos, quando visitei Cremona, estava curioso ao conhecer a cidade dos grandes lautiers. Mas acabei frustrado, pois não consegui ouvir o som de nenhum Amati ou Stradivarius. Para compensar, ganhei uma extraordinária sonata Waldstein de Beethoven, executada no piano por um músico de aluguel, daqueles que tocam para animar restaurantes quase vazios. Ao gratificar o triste pianista, um detalhe me deixou intrigado pelo resto do dia – ao lado do piano, repousava um velho e gasto estojo de violino. Aquele era um violinista que preferia o piano? Ou um pianista que desprezava seu violino?
Violinistas são pessoas estranhas. Raramente conseguem se ocupar ou pensar em outra coisa a não ser o violino e nos sublimes sons que ele produz. Mas a literatura nos presenteia com um desfile de extraordinários personagens que tocavam violino enquanto pensavam – ou faziam – outra coisa. O Sherlock Holmes de Conan Doyle tocava um Stradivarius antes de deslindar seus casos mais misteriosos. Outra figura inescrutável aparece em um dos romances de G. K. Chesterton – o vilão frio e calculista que aturdia o Padre Brown, ao tocar belas sonatas de Paganini enquanto arquitetava seus golpes. Depois, seu violino silenciava por meses – até o próximo crime.
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Wallace Hartley aprendeu a tocar violino com o maestro do coro da escola, em Conle, na Inglaterra. Em 1909, foi contratado para tocar na orquestra do novo transatlântico da Cunard, prestes a zarpar em Liverpool. Ele pensou em recusar, já que acabara de pedir a mão de sua noiva, Maria Robison. Mas a possibilidade de fazer contatos e ganhar futuros trabalhos o fez mudar de ideia. Era dele a passagem de número 250.654 que o instalava em uma cabine da 2ª classe do luxuoso liner.
Na madrugada de 15 de abril de 1912, o maior transatlântico do mundo chocou-se contra um iceberg e afundou duas horas e 47 minutos depois, matando 1.523 pessoas. Em meio à imensa confusão e já sabendo que não existiam botes salva-vidas para todos, um grupo de músicos continuou tocando, na inútil tentativa de acalmar passageiros e tripulantes. À frente do grupo, o jovem violinista Wallace Hartley. De acordo com o operador de rádio Harold Sydney Bride, que sobreviveu à tragédia, os sete músicos tocaram até o último minuto, no alto da escada do salão principal, não cessando mesmo quando três deles foram tragados pelas águas. A mesma testemunha afirmou que, ao final, Wallace Hartley subiu um degrau e, com uma mesura, saudou seus músicos:
“- Senhores, eu e meu violino nos despedimos”.
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O corpo do violinista foi encontrado pelo navio de resgate Mackay–Bennet e enterrado como herói em sua cidade natal. Mas as lendas não desaparecem facilmente – e, agora, 100 anos mais tarde, os pesquisadores anunciam que o violino de Wallace Hartley teria sobrevivido ao naufrágio. E que ele pode ser reconhecido por ter gravado em seu interior a letra de Nearer My God to Thee, a última música tocada no Titanic, antes que o grande navio submergisse nas profundezas do Atlântico. Comenta-se ainda que o violino teria sido localizado em uma pequena loja, em algum lugar do interior da Inglaterra.
Seria a mesma loja naquela rua estreita da qual não recordo o nome?


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