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O som do silêncio

José Antônio Moraes de Oliveira

“- Quando terminamos de ouvir 

uma sonata de Mozart,

o silêncio que se segue ainda 

continua sendo dele”.

Isaac Stern.

***

Às vezes me perguntam do que mais sinto falta dos tempos de infância na fazenda dos avós. Fico indeciso, sem uma resposta pronta, pois eram muitos os encantamentos que descobria na natureza quase selvagem. E haviam os homens, as mulheres, personagens rudes e sábios à sua maneira. Falavam pouco, habituados ao silêncio dos campos e das noites quietas. 

***

Quando eu voltava à rotina diária de Porto Alegre, sentia que os sons, antes eram tão familiares, pareciam altos demais e agressivos. Cedo de manhã, a cidade acordava com máquinas, caminhões e onibus rompendo o silêncio da noite. Nos campos e nas florestas que ficaram para trás, era diferente, os animais se assustavam e fugiam dos ruidos  e vozes estranhas. 

Meu avô Patrício era um daqueles homens que conheciam  o valor da quietude e do silêncio. Quando um dos peões ferrava um cavalo ou pregava uma tábua solta, ele se acercava mansamente, perguntando se ainda faltava muito para terminar o que ele estava fazendo.

E costumava dizer que era bom ficar em silêncio, ajudava a pensar e a entender as coisas da natureza. Certa vez, minha mãe disse que ele tinha um prazer especial, ao    escutar o silêncio do campo após uma grande trovoada. 

*** 

Quem vive em uma grande cidade precisa conviver com a babel de ruídos, barulhos, gritos e sirenes. Que muitas vezes avançam madrugada adentro, perturbando nosso sossego e acordando o cachorro do vizinho. Lembro uma estória que aconteceu há tempos na Suiça. Extremamente zelosos em suas individualidades, seus habitantes escreveram um capítulo exemplar sobre o direito ao silêncio. Foi por volta dos anos 50, quando a rede de bondes elétricos foi expandida aos bairros de Zürich e Genéve. Seus moradores, acostumados ao silêncio de vales e montanhas, ficaram inconformados com o barulho dos carros elétricos nos trilhos de aço. E organizaram um civilizado – mas decidido – protesto, ameaçando com um boicote coletivo ao novo transporte. Assustados, as autoridades ficaram obrigadas a adotar medidas para controlar a barulheira. Deve ser por isso que os bondes de Zürich deslizam sobre silenciosas rodas de borracha.

*** 

 A poesia do argentino Jorge Luis Borges nos faz lembrar da importância do silêncio que se oculta entre as frases e as palavras que pronunciamos todos os dias:

“- Não fale mais nada, a menos que possa melhorar meus silêncios”.

*** 

 

Autor

Redação Coletiva

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