Minha paixão por doces folhados despertou no velho Clube Germânia de Porto Alegre, lá pelos anos 60. Foi quando o Fridolino Schirmer colocou à minha frente uma dourada fatia de apfelstrudel, cercada de nata fresca, com pingos de chocolate amargo e polvilhada com sementes de papoula. Eu nem sabia que existia um doce tão bom. Porém, nunca mais consegui repetir a delícia, pois o feiticeiro Fridolino se recusava a preparar o prato, com a desculpa de sua frau ter perdido a receita.
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O nome na fachada lembra um verso de Paul Valéry – La Pâtisserie des Rêves. Aquela confeitaria, na rue de Bac, em Paris, era a primeira parada em uma busca pelo folhado perfeito. O interior da loja é mais impressionante, com a vista das elegantes vitrinas recheadas de maravilhas açucaradas, aquelas que fazer doer nossas papilas. São Saint-Honorés, Tartes au Citron, Eclairs de Café e de Chocolat, Tartes Tatins e uns incríveis Millefeuilles du Dimanche, uma versão do chef Philippe Conticini, que ganhou um recente Grand Prix de Pâtisserie. Arrisquei um pouco de cada, uma jornada instantânea aos sabores perdidos da infância.
A página de gastronomia do Le Figaro garante que um dos melhores doces folhados de Paris é o da Calixte Boulangerie. Com um toque de sadismo, acrescenta que Carla Bruni compra ali seus croissants para o café-da-manhã. O metrô atravessa a cidade até a Rue Saint-Louis-en- l’Ile, mas a sorte não viajou comigo – a fornada da manhã se esgotou minutos antes. Devo me contentar com um vidro de geléia caseira de goiaba, que – garante a balconista – também faz parte do petit dejeuner da ex-primeira dama.
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Um amigo parisiense, minha fonte de segredos gastronômicos dos quartiers, avisa que os melhores folhados de Paris mudaram de endereço e agora estão no novo Café Pouchkine, no número 64 do Boulevard Haussmann. Ao chegar, uma surpresa – estou diante do elegantíssimo e movimentado Printemps. Seria este magazine o esconderijo dos millefeuilles e apfelstrudels que habitam meus sonhos? Mas a surpresa inicial é rapidamente substituida por um encantamento. O novo Café Pouchkine reedita o melhor art noveau das antigas confeitarias do leste europeu, com sua decoração deliciosamente decadente. Percorro as vitrinas de cristal e latão polido, opulentas em doces, folhados, tortas, bolos e biscuits de tirar qualquer cristão do sério – ou da dieta.
Escolho um chocolate quente, que é apresentado em uma antiga chocolatière de prata com uma colher de madeira, devidamente perfumada com canela. Para completar a exorbitância, um prato de Koulichs, o brioche russo feito com chocholate amargo, recheado de créme-de-lait e vodka.
Uma jovem, sem maquilagem e de apron preto, coloca na vitrina ao lado uma grande travessa de dourados croissants. A placa de prata informa que o doce nasceu em Viena e foi introduzido em Paris em 1770, por ordem direta de Marie Antoniette. Impossível resistir e mergulho um dos croissants da rainha no chocolate quente.
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Caminho pela rue de Caumartin, respirando o ar de primavera. Como uma criança feliz, empanturrada de doces, mas que ainda não esqueceu o apfelstrudel com nata fresca, chocolate e sementes de papoula da frau Gerda.


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