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O teatro e os orixás

Teatro é um assunto sério. No país da chanchada, onde as pessoas usam a camiseta sugerindo “vá ao teatro, mas não me convide”, Fu …

Teatro é um assunto sério. No país da chanchada, onde as pessoas usam a camiseta sugerindo “vá ao teatro, mas não me convide”, Fu Lana arriscou ao ser uma das quinze ou vinte pessoas que assistiram às palestras dos seis vencedores do 1º Concurso Nacional de Monografias – Prêmio Gerd Bornheim, oferecido pela Prefeitura de Porto Alegre, através da Coordenação de Artes Cênicas. Logo no início, pensou que não deveria estar ali, pois nada tinha em comum com o povo teatral. A não ser pela aparência estranha, pelas expressões exageradas e por alguma oscilação no humor, mas gostou muito de ter ficado. Fez muito bem Si Crano, seu amigo estrangeiro, que lhe enviou um e-mail silencioso e provocador despertando sua curiosidade sobre o assunto. Fu Lana gosta muito de entrar de orelhada nos assuntos mais diversos.

Sobre o segundo colocado na categoria Brasil, “Eva Todor na Cia. Eva e seus artistas (1940-1963)”, Fu Lana conheceu um pouco da história dessa atriz que construiu o gênero Eva, uma forma particular de mover-se e de estar em cena. Não eram apenas pernas no palco, como o usual na época, afirmou Ângela Reis, mas movimentos menos amplos, um jeito autoral de se colocar. A pesquisadora, que confessou estar conhecendo a Cia. graças à própria monografia, conseguira algumas fotos e esteve em uma palestra com a própria Eva Todor. Não fazia idéia de que uma atriz pudesse, por 23 anos, no Brasil, ter mobilizado atores em torno do seu nome, ter dramaturgos que escreviam especialmente para ela e, ainda assim, não existir documento sobre isso no país. Quando ela esteve em Portugal, em uma pequena escola de teatro, encontrou centenas de obras do país inteiro, postais de peças portuguesas e minicenários recortados em papel, para o deleite dos leitores. No Brasil, nem na Funarte existem vestígios sobre a história do teatro. Por isso, esse Prêmio veio em muito boa hora.

O mentor, Luiz Paulo de Vasconcellos, dividiu a autoria da idéia com o secretário municipal de Cultura, Sergius Gonzaga, quando o plano inicial era premiar trabalhos sobre o teatro do Rio Grande do Sul e acabou se transformando em um Prêmio Nacional. Palmas para quem merece.

O “Candomblé como inspiração para a criação do ator”, trabalho vencedor na categoria nacional, certamente contou com a ajuda dos orixás, o que, à primeira vista, pode parecer uma vantagem desleal em relação aos concorrentes. Porém, foi só Luciana Saul começar a contar sobre o seu trabalho de pesquisa e o público ficou hipnotizado, convencido de que ela deveria mesmo ter ganhado. Falava de como o corpo era a representação do sagrado, de como cada ambiente diz sobre seu santo, de como os rituais são levados a sério. Trabalhou com um grupo de atores, que estudou o toque como transmissão de energia, os atabaques como a preparação para a passagem. Estudou as faixas de energia de cada santo e suas nuances, depois montou um espetáculo que recebia entre o público, fiéis, descrentes, pais e mães de santo a caráter, e pessoas comuns. Falava e seus olhos pareciam querer flutuar sobre nossas cabeças, os poucos afortunados da noite.

Na categoria Rio Grande do Sul, Fu Lana apreciou Raquel Pilger, de Lajeado, trazendo informações sobre o Teatro de Arena, trabalho que ficou em segundo lugar. Um trabalho que não fala sobre o grupo do centro do país, mas sobre aquele que ficava em Porto Alegre, no alto da escadaria da Borges de Medeiros, fazendo resistência aos anos de chumbo. No mesmo prédio onde está hoje o Teatro de Arena, de propriedade do Estado.

Raquel sempre se sentiu indignada com alguns comentários de colegas que não sabiam que teria existido uma ditadura, tampouco conheciam o Arena e ainda faziam teatro. Fala-se sobre teorias e experiências, dizia ela, mas nada fica registrado sobre um dos locais mais importantes da história do teatro gaúcho e sobre as pessoas que fizeram das experiências, a base de seu trabalho e das teorias, a sua prática. Raquel tem esperança de que aquele histórico Arena figure em um livro, tal como o Teatro de Equipe, que virou brochura em 2003. Fu Lana maquinava com seus botões de editora e sonhou em tornar possível o desejo da pesquisadora. Vai começar a acreditar em orixás, pois, já se viu, eles dão excelentes parceiros. 

Autor

Clo Barcellos

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