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O último engraxate

Ele não lembrava mais há quanto tempo estava na praça. Devia ter uns 10 ou 12 anos, quando começara a ajudar o pai em …

Ele não lembrava mais há quanto tempo estava na praça. Devia ter uns 10 ou 12 anos, quando começara a ajudar o pai em sua cadeira de engraxate na Praça Quinze. Cedo de manhã, os dois tomavam o “gaiola” Glória e desembarcavam bem ali ao lado, no abrigo de bondes. Armavam a cadeira, abriam o guarda-sol e arrumavam as escovas, os potes de graxa e os vidros de tinta. Quando o sino da Igreja do Rosário tocava as oito horas, já estavam a postos para mais um dia de trabalho.

***

Mas, de uns tempos para cá, José Maria – que os engraxates mais velhos chamavam de “Papagaio” – andava cansado de passar seus dias à toa, esperando clientes. Os tempos haviam mudado: agora, ninguém mais tinha tempo ou paciência para interromper seu caminho e engraxar os sapatos. Ele ficava observando os transeuntes apressados, quase sempre correndo de um lado para o outro. Sua atenção era para os homens que ainda usavam sapatos de couro. Apenas os homens, pois mulheres não engraxavam e os jovens só andam de tênis – uma verdadeira praga…

Quando identificava alguém com sapatos, o olhar de José Maria subia dos pés para o rosto, procurando contato visual. Então, disparava, com seu melhor sorriso de vendedor:

“- Vai uma graxa aí, doutor?”

A maioria nem se dignava a responder. Outros, olhavam distraídos para seus pés, hesitavam e seguiam em frente. Ele suspirava, uma, duas vezes, lembrando dos tempos em que havia mais de 10 engraxates na alameda, as cadeiras simetricamente alinhadas, seus guarda-sóis coloridos enfeitando a praça. Agora, estava sozinho, os demais, aposentados ou haviam desistido. Do outro lado do canteiro, a cadeira do velho Juca Paixão continuava fechada. Ele devia estar adoentado ou cansado demais para vir ao Centro.

Mas José Maria tinha lá suas alegrias – de vez em quando, seu rosto      se acendia. Lá adiante, vinha um dos clientes mais antigos, o doutor Estevão. Estava saindo do Chalé, onde costumava tomar seu café-com-leite-e-pão-com-manteiga. Seus sapatos de cromo estavam sempre brilhando, mas ele nunca deixava de sentar na cadeira para uma “retocada”, como costumava dizer.

Era a hora de mostrar serviço – José Maria abria a gaveta, arrumava as latas de graxa e os vidros de tintas debaixo da cadeira. Alisava os panos de lustrar, enquanto o doutor Estevão abria seu jornal, fazendo um ou outro comentário sobre as notícias do dia – a prisão de um batedor de carteira na Rua da Praia, o empate no Grenal de domingo, coisas assim.    

***           

No tempo de seu pai, os clientes não precisavam comprar o jornal na banca, pois o velho sempre tinha um jornal do dia para oferecer e até a última revista “A Cigarra”. Bons tempos aqueles, as pessoas não tinham pressa, aguardando a vez de engraxar ou retocar com tinta um esfolado no couro.

Mas o mundo estava diferente, pensava, no ônibus a caminho de casa. Movido por hábito, mas do que por curiosidade, olhou disfarçadamente os calçados dos passageiros – algumas sandálias, muitos tênis e os tais sapatos de couro falsificado, uma tristeza… José Maria sabia que, mais cedo ou mais tarde, a hora iria chegar – no entanto, continuava abrindo  a cadeira todos os dias, mais por teimosia do que por outra coisa. E também para cumprir a promessa ao pai, de continuar na profissão enquanto tivesse saúde.

 “- É uma profissão honrada”, o pai dizia, “a casa em que moramos foi comprada com o dinheiro das minhas graxas”.

Então, chegou o dia. Agora, não precisava mais ir à praça todos os dias, montar e desmontar a cadeira e o guarda-sol desbotado. Nem tivera tempo de avisar o doutor Estevão e os outros clientes. Como era mesmo o nome daquele do cartório da José Montauri? O que usava sapatos marrons e que ainda o chamava de “Papagaio”? Ah, claro, seu nome era Armandinho. E havia outros… lá da Livraria do Globo, da Guaspari…

***

José Maria tateou no bolso da camisa. Não imaginava que um envelope com uma única folha de papel pudesse pesar tanto. Era um aviso da Prefeitura, comunicando que sua licença expirara e que ele não poderia mais trabalhar como engraxate na Praça Quinze.

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Autor

José Antônio M. de Oliveira

O colunista é um veterano jornalista e publicitário. Assina uma coluna no Coletiva desde 2005. Foi repórter e redator nos jornais A Hora, Jornal do Comércio, Folha da Tarde e Correio do Povo. Como publicitário, atuou na MPM Propaganda nas sedes de Porto Alegre, do Rio de Janeiro, de São Paulo e também em Nova York, durante o convênio MPM / N.W.Ayer Advertising. Criou e redigiu comerciais e anúncios para Ipiranga, Renner, Banco do Brasil, Embratur, I Love New York, Pan American World Airways e American Airlines. Diretor de Comunicação do Grupo Iochpe, foi co-fundador do CENP, a entidade de normas éticas para anunciantes e agências de publicidade. Em 2021 publicou o livro de memórias ‘Entre Dois Verões’ – já esgotado – contendo 30 crônicas sobre sua infância nos campos do Sul e na Porto Alegre dos anos 50. Agora, volta à cidade em seu segundo livro, ‘Um Rio Portas Adentro’, onde registra e relembra as grandes cheias que assolaram a cidade em 1941 e 2024 e presta tributo a algumas das personagens mais singulares e sedutoras que agitaram Porto Alegre em seus anos dourados. E-mail para contato: [email protected]
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