
Casildo Flores não era um homem religioso, nunca pisara na capela da vila, que ele mesmo mandara construir, mas tinha para si mesmo uma fé quieta e firme. Da boca para fora, dizia que sacristia era coisa de velhos e gente com crimes na consciência. No entanto, seus amigos juravam que, em outros tempos, na hora das peleias de adaga, se benzia de chapéu na mão e com os olhos voltados para o céu.
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Nunca o ouviram se queixar dos tropeços da vida. Mesmo desenganado pelos médicos da Santa Casa, evitava falar de suas malências, muito mais preocupado com ovelhas, peões e cavalos. E quando os homens usavam a manga da camisa para disfarçar um molhado no canto do olho, fazia troça, rindo debaixo do bigode negro:
“Não se apoquentem, amigos. Homem que se preocupa já leva a morte na garupa”.
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Os amigos procuravam disfarçar a tristeza de vê-lo fingir que estava bem, enquanto lembrava velhas estórias da revolução, quando cavalgava debaixo de temporal para avisar que as tropas dos orientais estavam chegando. Ganhando ou perdendo, Casildo Flores era o tipo de homem que nunca se deixava derrubar.
Quando as dores davam uma trégua, chamava os homens para saber da tosquia das ovelhas e de como andavam os rebanhos. Havia arranjado para que levassem seu Malacara para debaixo do cinamomo. Assim, podia esticar um olho pela janela afora e ver o peão Edu lavar e escovar o cavalo, até que ficasse com o pelo brilhando sob o sol de verão. Mas, em seu olhar entristecido, dava para ver a pergunta: “um dia voltaria a galopar campo afora e coxilha acima?”.
Mal o sol aparecia, se barbeava com cuidado, lavava o rosto na bacia de porcelana e se vestia como se fosse dia de festas. Fazia poucas concessões, como deixar frouxo o lenço no pescoço e esconder a adaga debaixo do travesseiro.
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Com o fim-de-ano chegando, os homens tiveram a idéia de trazer um Terno de Reis para animar o patrão doente. Queriam reunir a peonada com suas famílias, chamar os velhos amigos. Para fazer a coisa certa, mandaram vir um bom gaiteiro e um payador de contrapunto. Como arremate, encomendaram na cozinha um almoço como nos velhos tempos: arroz de carreteiro com charque picado a faca, quibebe com leite de ovelha e ambrosia dourada como mel, como só a negra Esmeralda sabia fazer.
O dia de festa amanheceu com céu azul e os campos de um verde de doer na vista. Casildo Flores saiu da cama cedo da manhã, animado com os ruídos que vinham da cozinha e com o falatório nos galpões. Parecia contente com a notícia que a tosquia de ovelhas rendera mais plata do que o esperado. Os homens tentaram fazer mistério nos preparativos da festa, mas ninguém conseguia esconder nada do velho gaudério.
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Mas quando viu chegar o padre Anselmo, com seus cabelos brancos desgrenhados largando caspa na batina gasta, o ex-capitão fechou a cara e voltou para dentro de casa. O padre, que sabia das manias do velho, foi cuidar de suas obrigrações. Como fazia todos os anos, vinha ler um salmo do Rei David para as famílias dos peões. As mulheres ficavam em uma alegria só e até os homens ouviam com atenção.
Mais tarde, o padre Anselmo entrou quieto na casa e ficou lá por um bom tempo. Quando saiu, havia um monte de gente ao redor dos cantadores do Terno de Reis. Sem que ninguém percebesse, caminhou lentamente para sua charrete, do outro lado do casarão.
O velho peão Edu o esperava nas sombras, a interrogação no olhar. Então ouviu a voz rouca do padre Anselmo dizer o que ele já sabia:
“O capitão Casildo foi encontrar seu Criador. Estava até sorrindo ao ouvir o Terno de Reses”.
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A charrete mergulhou no escuro dos campos, enquanto do terreiro chegava o canto chorado dos payadores:
“Lá das bandas do Oriente,
Estão chegando os Santos Reis,
Nos ares fazem remanso,
Procurando uma morada
P’ra fazer o seu descanso”.
“Abra a porta pro Menino,
Os Santos Reis se despedem,
Deixando muita saudade.
Pro povo desta cidade,
E os pastores vão s’imbora, para chegar
Bem antes do galo cantar”.

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