O peão Florêncio dizia que não acreditava em nada, nunca pisara na capela da vila e achava que coisas de religião eram pra mulheres e gente com culpa no cartório. No entanto, os amigos não disfarçavam um riso maroto quando o viam tirar o chapéu, ao passar diante do cemitério. Um riso às escondidas, pois sabiam que ele não era homem de deixar nada sem resposta. Alto e troncudo, era capaz de derrubar um terneiro com uma só mão e chutava com desprezo as cascavéis que cruzavam seu caminho.
***
Mas mesmo um homenzarrão como ele tinha lá suas fraquezas. Nos sábados à noite, esvaziava sozinho mais garrafas de caña do que todo o resto da peonada. E quanto mais bêbado, mais carrancudo ficava. E quando chegava a madrugada, montava a cavalo e sumia na escuridão. Duro por fora, o peão Florêncio parecia que se amaciava por dentro quando ouvia o choro de uma gaita cordeona ou a cantoria de um Terno de Reses. Os outros, que tinham medo de perguntar, ficavam especulando quais lembranças seriam aquelas que mexiam fundo com ele. Com certeza, coisas de tempos obscuros, pois ninguém sabia coisa alguma de seu passado.
Dizem que foi no inverno de 40 ou 41, quando choveu demais na província e fez frio de gelar água na cacimba e de renguear cusco. Quando Florêncio não apareceu em um domingo, os homens sairam à sua procura e o encontraram caído no mato, encharcado até os ossos. A pneumonia não demorou e junto veio um febrão que, em poucos dias, abateu o homem que não tinha medo de nada.
Chamaram o médico da Santa Casa, que receitou emplastros, um chá caseiro e saiu pela porta, abanando a cabeça. Os peões e os homens da fazenda foram chegando assustados e sem saber o que fazer. Os mais moços passavam a manga da camisa no canto do olho, para disfarçar uma lágrima envergonhada.
Quando viu os amigos à sua roda, Florêncio ainda teve força para fazer troça:
“Não se assustem, gente, isso não é nada. Vou levar a morte na garupa”.
E com os olhos em fogo, meio delirando:
“Quanto falta para o Dia de Reses?”
Até que procuraram demais – bateram a vila e todo o Rincão dos Pelados, mas nada de cantadores. Ainda estavam no meio do ano e os trovadores deviam andar longe, lá pela banda oriental. Na roda de fogo ninguém dizia nada, os peões desanimados por não poder dar uma última alegria ao amigo que definhava. Foi quando o negro Edu arregalou os olhos, coçou a cabeça e disse que eles mesmos podiam cantar o Terno, ali de dentro do galpão. O quarto do doente ficava longe, o vento estava forte e ele poderia morrer em paz, pensando que o Dia de Reses havia chegado.
E, noite adentro, meio desafinados e fora do tom, os peões se revezavam na cordeona e no coro, repetindo alguns versos que lembravam da cantoria do último Natal:
“Ó minha Nossa Senhora,
Escute ao menos agora
Um pedido que le faço.
Até já vejo os caranchos
Rodeando em volta de mim.
Quero falar do chimarrão
do churrasco e do gaiteiro.
Quero falar do minuano,
do poncho amigo e do laço.
De um tempo iluminado
Pelo riscar das adagas
e pelo olhar da amada.
Vendo a tapera silenciosa
sinto um aperto no peito.
E uma baita nostalgia
da vida gaudéria e passada.
Não sei reza nem prece, mas
ao patrão do céu peço, sincero,
que proteja este mundo campeiro
e o grito do quero-quero”.
***
O peão Florêncio morreu naquela madrugada fria e ventosa e não havia ninguém à sua cabeceira. Mas por muitos anos, correu a estória que ele foi em paz, sorrindo o tempo todo.


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