“Existem três tipos de pessoas: as que fazem as coisas
acontecerem; as que olham as coisas acontecerem;
e as que perguntam o que foi que aconteceu.”
(Antoine de Saint-Exupéry)
Em setembro de 1998, o pescador Jean-Claude Bianco encontrou no mar, ao sul de Marselha, um bracelete de prata com o nome de Antoine de Saint-Exupéry. O achado galvanizou a mídia francesa, reacendendo a esperança de desvendar um mistério que durava sete décadas – o desaparecimento do famoso aviador em um voo de reconhecimento no final da II Guerra. A marinha e a força aérea vasculharam o Mediterrâneo durante meses, até que, em setembro de 2000, o mergulhador Luc Vanrell encontrou o trem de pouso do Lockheed P-38 Lightning de Saint-Exupéry.
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Exatamente 80 anos antes, em setembro de 1920, um pequeno monotor decolava da desolada Patagônia com destino a Buenos Aires, num voo de 2.500 quilômetros. No mesmo dia, outros dois monomotores decolavam de Santiago de Chile e de Assunción, com o mesmo destino. Na chegada, os pilotos deveriam repassar seus malotes para um voo sobre o Atlântico, com destino a Paris, com escalas no Brasil e Marrocos.
Eram os primórdios da aviação postal, que plantou a semente da aviação comercial, tal como a conhecemos hoje. Naqueles dias, voos noturnos não contavam com muitos recursos de navegação e quase sempre se transformavam em autênticas aventuras. Os pilotos contavam apenas com a intuição e a coragem. Após a decolagem, não recebiam alertas de tempestades em rota e havia apenas uma coisa a fazer – continuar voando.
Os voos postais do Chile e do Paraguai chegam a Buenos Aires no horário e fazem a entrega do malote. No entanto, o voo vindo da Patagônia enfrenta uma grande tempestade. Sem contato por rádio e para contornar o mau tempo, o piloto voa baixo, se orientando pelas luzes em terra. Ao sobrevoar Comodoro Rivadávia, recebe o sinal luminoso indicando “sem condições de pouso”. O monomotor entra na tempestade e retoma a rota para Buenos Aires.
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Este é o tema de Voo Noturno, um grande sucesso literário de 1931, que transforma Antoine de Saint-Exupéry em um escritor famoso. Novas e emocionantes estórias de voos e aviadores se seguem: Terra dos Homens, Piloto de Guerra, Carta a um Refém, além do póstumo Cidadela. Então, em 1943, a fama mundial de Saint-Exupéry explode, com a publicação de O Pequeno Príncipe, que ficou conhecido como livro de cabeceira das adolescentes, o qual, os livreiros dizem ser o livro mais vendido depois da Bíblia.
A fábula ilustrada do menino de outro planeta, que desce sobre o deserto africano, pouco tem em comum com o drama dos pilotos que abriram rotas postais entre França, África e América do Sul.
Mas, curiosamente, foi uma pane mecânica sobre a África que permitiu a Saint-Exupéry escrever O Pequeno Príncipe, enquanto aguardava resgate em uma tenda, no deserto da Líbia.
Aventura esteve sempre presente na vida do aviador e hoje provê material para biógrafos e editores. Seu desaparecimento, na costa de Marselha, na noite de 31 de julho de 1944, é um dos grandes mistérios da aviação. Assim como o destino de Amelia Earhard, em 1937, ou do Voo 19, quando cinco bombardeiros Avengers sumiram no Triângulo das Bermudas, em dezembro de 1945.
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Antoine de Saint-Exupéry escolheu um final marcado com o mesmo mistério e romantismo presentes em toda a sua vida. Seu último voo, solitário e não autorizado, permanece como um perfeito mistério. Correram boatos de que teria sido alvejado pela artilharia anti-aérea ou abatido por um caça alemão, mas os registros da Luftwaffe não anotam a presença do P-38 Lightning naquela data na área. O mergulhador Luc Vanrell atestou que não havia marcas de balas nos destroços do avião retirados do Mediterrâneo.
Intrigado, ele passou anos pesquisando os últimos dias de Saint-Exupéry. Era fato conhecido que o escritor passava por uma crise de depressão, em virtude das perseguições políticas e por ter sido retirado da escala de voos de seu esquadrão. Luc Vanrell sustenta que foi uma pressão insuportável para um herói da aviação e escritor aclamado em toda a França. Com relutância, Luc Vanrell aceita que o criador do Pequeno Príncipe tenha se suicidado:
“Saint-Ex receava que lhe retirassem as asas de aviador.
Naquela manhã, voou para o Sul e escolheu as
águas azul-turquesa do Mediterrâneo como lugar perfeito
para seu último mergulho.”

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