Para as crianças, não existem mentiras. Assim como todos os sentimentos, as verdades convivem expostas com os brinquedos espalhados pelo chão. E nem no baú onde guardam peças desgarradas de carrinhos, bonecas e jogos de montar, os pequenos arrumam um espaço para armazenar falsidade, hipocrisia, raiva, ódio e sonhos desfeitos. Aos olhos infantis, tudo é permitido. Brincar até a hora em que o papai e a mamãe perdem a paciência e carregam o filhote no colo para a cama. Pular alguma refeição para chegar mais rápido até a sobremesa, que se torna bem apetitosa se estiver representada por um chocolate ou um picolé. Fingir que não escutou a ordem de não fazer a travessura e subir nos móveis da sala.
No universo infantil, os gestos são espontâneos e os carinhos são ofertados sem que nada em troca seja esperado. A única regra da convivência é ser feliz. E para isto, é preciso brincar, pular, rir, espernear, gargalhar, abraçar, cantar, ouvir a mesma estória 20 vezes e rever o mesmo filme sem nenhum sinal de impaciência. Afinal, se a galinha pintadinha faz tudo sempre igual, deve existir alguma graça em vê-la repetir os mesmos movimentos e as mesmas músicas.
No final de semana, convivi dois dias com três crianças maravilhosas. Dois meninos e uma menina. O Lucas, meu sobrinho e afilhado, com quase um ano e sete meses. O João Pedro, sobrinho neto, filho da minha querida sobrinha Camila, com quase um ano e quatro meses. E a Lohana, irmã de João Pedro, com três anos e quatro meses. Dentro de uma casa nem tão espaçosa para abrigar os brinquedos de todos os tipos do Lucas, com alguns adultos que já carregam as neuroses do cotidiano, e uma chuva intensa que impedia a fuga dos pequenos para o pátio. E uns torcedores nervosos, nos quais em me incluo, ansiosos pela hora do Grenal, para a vitória merecida do meu time.
Os momentos que passei cercando as crianças para assegurar que os brinquedos fossem divididos. Ou que carreguei os meninos no colo para levar até o quarto e trocar as fraldas. Ou que na hora de dormir contei três vezes a estória da Cinderela e do Chapeuzinho Vermelho para a Lohana nanar. Ou que fiz aviãozinho para que os guris comessem o feijão. São todos instantes de crescimento. São concessões de doses generosas de felicidade. São lições de vida. Tudo pode ser resumido num único cenário: o transbordamento da vida.
As minhas crianças não são melhores do que as crianças de ninguém. Como todos os pequenos deste mundinho, Lohana, Lucas e João Pedro têm ataques de birras, fazem manhas, teimam e são excessivamente insistentes quando desejam algo. Como todos os guris e gurias deste planeta, Lohana, Lucas e João Pedro sabem ser extremamente queridos, carinhosos e convincentes quando conseguem o que almejam e demonstram agradecimento. As crianças são todas iguais, independentes de qualquer outra condicional. Apenas querem e merecem amar e ser amadas.
Se todas as crianças são exatamente iguais, todas têm direito a tratamento igual. Sem nenhuma distinção. Sem nenhuma discriminação. Todas têm qualidades. E enquanto crianças, o único defeito que apresentam é crescer rapidamente. Elas nunca deveriam ficar adultas e perder a ternura.
Portanto, de extrema infelicidade o comentário do comunicador Marcos Piangers, do Pretinho Básico, programa da Rádio Atlântida, do Grupo RBS, quando afirmou que as crianças portadoras de Síndrome de Down têm defeito. Mesmo que depois tenha feito um pedido de desculpas para tentar amenizar a repercussão de tamanha asneira. Desconheço o comunicador. Não sei de sua vida particular. Menos ainda de sua vida profissional. E para não cometer o mesmo erro que ele, não tecerei nenhum comentário sobre a sua pessoa ou seu desempenho profissional. Penso que cabe aos envolvidos diretamente no assunto a adoção de medidas cabíveis.
Se fosse irresponsável, diria que defeito tem um comunicador que espalha, num programa de tamanha audiência, uma afirmação preconceituosa e discriminatória como a que ele espalhou. Não sou irresponsável. Mas o que dizer de uma emissora de comunicação que mantém em seus quadros um funcionário que dissemina essas desinformações?

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