O verão mudou. O verão foi invadido por crianças, gordos e cachorros. Pode se acrescentar também as parabólicas. Qualquer cabana, em qualquer biboca, tem uma, enfeando a paisagem com seu perfil de ficção científica.
O verão uma vírgula: o que foi invadido foi o verão de Santa Catarina, ou nem isso, ou de algumas praias de Santa Catarina. Faço parte daquela turma que foi para lá de carona nos anos 70 e entrou pela porta dos fundos do Hotel do Lobo, em Garopaba, pra filar um banho. Éramos todos adolescentes, ou quase. Na certa a maioria não poderia fazer um comercial de bronzeador, mas os gordos eram raros e tínhamos aquele ânimo um tanto selvagem dos pioneiros. Crianças? Nem pensar, fora os descuidos de sempre. Cachorros? Só os nativos.
Uma vez fui a Torres. Lembro que tinha muitos velhos gordos e adolescentes lindas. Mas nada de cachorros, nem de crianças. Não chegamos ao ponto de um Uruguai, uma desolação povoada de velhos, mas naqueles tempos verde-oliva o número de crianças era mínimo. Não sei se todos os sistemas ditatoriais têm esse efeito, ou se foi uma coisa específica, porque é bom não esquecer que vivíamos uma escaramuça sexual (porque revolução, cá pra nós…), quando o prazer pelo prazer era a idéia geral e os filhos não passavam, como diria venenosamente o Mario Quintana, de um subproduto do amor. Quanto aos cachorros, claro, só tinha policiais.
Torres é o melhor pedaço dos mares deste sul. Suspeito que se trata de um erro geográfico. Torres devia ser em Santa Catarina. Concordávamos com paixão: tínhamos descoberto o paraíso. É, quase Melville entre os taipis. Não deixávamos por menos. Embora eu tivesse preferido um paraíso com mais banheiros e uma culinária sem cominho. Talvez o paraíso estivesse menos na beleza do que em nosso sentimento de descoberta dessa beleza. Porque era meio como se nossos olhos tivessem inventado tudo. Muita gente viu antes de nós aquelas praias e preferiu sentar praça em aberrações marinhas como Tramandaí ou Capão da Canoa. Os próprios moradores parecem ter se dado conta da coisa através de nós. Levaram anos para entender o que íamos fazer naqueles fins de mundo.
Lembro de verões em que tive praias inteiras apenas para mim e a namorada. Um luxo, não? Melhor ainda: tudo isso sem ser proprietário de um punhado de areia. O lixo industrial era mínimo, a especulação imobiliária inexistente e a camada de ozônio ainda era mais conservada do que a Tônia Carreiro. Os nativos, sem experiência de turismo, não queriam nos depenar: queriam ser nossos amigos. Era uma honra nos receber.
Não éramos ingênuos o suficiente para achar que isso ia durar para sempre. Havia o exemplo de Garopaba. Garopaba caiu mais rápido do que o Gerald Ford aquela vez, na escada do avião. Atrás de nós vieram nossos pais — com eles, a grana. Daí pra frente foi aquele filme triste.
Eu mais ou menos me refugiei no Farol de Santa Marta, em Laguna. Era uma aldeia de pescadores em 1975, quando aportei, levado pelo acaso, meu meio de transporte preferido. Cheguei a pé. A estrada tinha sumido sob as areias. Quando soprava o nordeste ou o sul, a estrada se desmanchava, como alguns casamentos e amizades. Era preciso nervos de aço ou temperamento de profeta pra agüentar mais de três dias de vento. Mas havia dias perfeitos, perfeitos mesmo, que nem ressaca de caipirinha de vodca atrapalhava e em que perdoávamos até o excesso de cominho no molho de camarão.
O Farol é feito de céu, mar, pedra e sol, uma paisagem primária, criada agorinha mesmo — Deus ainda não teve tempo de enfeitar. Por isso, fui ficando, como o fotógrafo Eduardo Tavares e tantos outros. Sobrevivemos a tudo, até a briga em carnaval. Sentimos na carne que civilização é luz elétrica, água encanada e antibiótico. Pode se acrescentar agora — sinal dos tempos — a camisinha, o protetor solar e o bombril com sabão. Mas as dificuldades do Farol eram quase alegria: mantinham a turba afastada.
Mas a turba chegou. Como em outros lugares, começou com multidões de jovens. Com os jovens, as drogas, os traficantes, a polícia. Por aí, já havia várias famílias infiltradas e a corrida imobiliária se tornou tão grande que um vereador de Laguna deixou escapar esta pérola negra: “Precisamos impedir a desova indiscriminada de casas”. Mas a desova continuou. Só o que não chegou mesmo ao Farol foi o bombril com sabão, ou a vergonha na cara e alguns outros gêneros de primeira necessidade.
Ao contrário de Torres, os gordos do Farol são novos. Poucos, pelo que vi, apareceram magros antes. Aonde iam? Para onde foram os magros que a gente conhecia? Outra coisa: dizem sempre que os homens resistem mais que as mulheres à proximidade dos quarenta. Dessa vez parece que não. Mais ou menos metade das mulheres estava praticamente inteira, se me desculpam a expressão. Já os homens, fora alguns surfistas, não passavam de um cardume de peixes-boi. Talvez pareça fútil a minha preocupação, mas é que ouço há décadas que todo mundo está numa de corpo, que o homem se descobriu como objeto de desejo, que as mulheres estão de olho em outras coisas além da conta bancária do sujeito. Fiquei com a impressão de que minha geração no fundo era mais mole do que outras.
Quanto aos cachorros, não tenho nada contra, desde que não venham fazer xixi no meu guarda-sol. Quanto às crianças, fiquei na dúvida: são um sinal de que os tempos melhoraram, são apenas produto da nossa esperança louca ou mais uma prova de que a natureza não brinca em serviço e nos passou a perna mais uma vez? Não sei, mesmo sendo um dos que compareceram com cachorro e filho. Só sei que foi uma alegria.

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